Fazer desporto é bom.
É saudável, divertido por regra, e apenas raras vezes acaba em noites de febre e vómito ensanguentado (é normal não é, ou serei eu que estou cronicamente doente?).
Nascido e criado em Aldoar, desde menino que pratico desporto, por lazer ou necessidade. Nesta terra de gente rude e avessa à lei, cedo às crianças são inculcados os princípios básicos do atletismo, desta feita dissimulados em regras de sobrevivência. “Que deves fazer se vires um cigano na rua?”, perguntam-nos pouco após abandonarmos o berço. “Deves correr desalmadamente e trepar a árvore mais próxima.”, exemplificam-nos prontamente.
Continuam: “Se vires um preto deves largar a carteira, correr, saltar muros, e assim que longe deves rezar aquela oração que te ensinaram na catequese.”, diz-nos o padre, enquanto nos coloca a mão dentro das calças (é normal não é, ou fui eu que fui continuamente molestado pelo meu pároco?).
Os anos voam, passamos a puberdade, atingimos a maturidade, e descobrimos que o nosso tio e padre além de pedófilos eram racistas. Então abandonamos as nossas mais profundas crenças, esquecemos as lições de atletismo, e não tarda engordamos. Quando em festa ou descontraída reunião culpamos a cerveja pelos sete novos quilos, enquanto risonhamente pedimos ao empregado mais doze finos.
Face tão funesta realidade o Estado não teve mãos a medir: desceu o IVA sobre o consumo relacionado com a prática desportiva, fomenta a mesma através de campanhas publicitárias mal conseguidas, e faz-nos correr pondo-nos o fisco à perna.
Num gesto de solidariedade social e de forma a saldar a minha divida para com a sociedade, decidi fazer o mesmo e pôr todos a correr. Agora sou testemunha de Jeová, e cigano nos tempos livres.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Mythbuster
Neste curto ensaio pretendo desmascarar uns tantos mitos, urbanos e rurais, que assolam e assombram a enfraquecida sociedade dos nossos dias. Um ano e meio de árdua e morosa pesquisa antecedem esta exposição, ano e meio esse em que o autor, fruto da má sorte e pouca fortuna, perdeu um dedo e viajou inúmeras vezes no autocarro rodeado de idosos tossiquentos.
1- Disparar contra o depósito de combustível dum automóvel em movimento provoca a sua explosão – Falso. Há tempos fracassei quando desta forma tentei impedir a fuga de duas prostitutas búlgaras que me haviam burlado.
2- A visão dos dirigentes sindicais baseia-se no movimento – Verdadeiro. À semelhança dos dinossauros, os dirigentes sindicais apenas têm a percepção visual de um objecto quando este se move.
3- O Benfica é uma Nação – Falso/ (Verdadeiro quando sob o efeito de poderosos psicotrópicos). Apesar do Benfica realmente ter sido membro da Sociedade das Nações aquando da fundação desta, isto não mais se tratou do que uma brilhante tirada de humor negro por parte dos membros britânicos da Sociedade. Na década de 60, este mito renasceu durante uma noitada de sueca entre velhos senis numa tasca em Alfama.
4- Guilherme Silva é infértil – Falso. Apesar de assim parecer, Guilherme Silva não tem filhos não por “disparar pólvora seca”, mas sim por não conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo. Assim, da mesma maneira que este não consegue ler enquanto ouve musica, também não consegue procriar enquanto pratica o amor.
5- Cortes de papel doem que se farta – Falso. Ser baleado numa rótula dói que se farta. Cortes de papel são apenas os “primos pobres” das dores a sério.
6- Fornos de Algodres é “a Paris ibérica” – Falso. Esta ideia, não só falsa como estúpida, surgiu pela primeira vez num livro de Margarida Rebelo Pinto, e não tardou a proliferar pela literatura light portuguesa.
7- Vestir a roupa do avesso protege-nos da má sorte – Verdadeiro. Confesso que julgo este mito verdadeiro, pois desde menino que me visto de tal forma e apenas por uma vez vi um rim meu ser roubado por um cigano.
8- Algures na fronteira entre o Parque da Cidade e a avenida da Boavista existe um parque naturista – Falso. São apenas prostitutas a laborar.
(…)
1- Disparar contra o depósito de combustível dum automóvel em movimento provoca a sua explosão – Falso. Há tempos fracassei quando desta forma tentei impedir a fuga de duas prostitutas búlgaras que me haviam burlado.
2- A visão dos dirigentes sindicais baseia-se no movimento – Verdadeiro. À semelhança dos dinossauros, os dirigentes sindicais apenas têm a percepção visual de um objecto quando este se move.
3- O Benfica é uma Nação – Falso/ (Verdadeiro quando sob o efeito de poderosos psicotrópicos). Apesar do Benfica realmente ter sido membro da Sociedade das Nações aquando da fundação desta, isto não mais se tratou do que uma brilhante tirada de humor negro por parte dos membros britânicos da Sociedade. Na década de 60, este mito renasceu durante uma noitada de sueca entre velhos senis numa tasca em Alfama.
4- Guilherme Silva é infértil – Falso. Apesar de assim parecer, Guilherme Silva não tem filhos não por “disparar pólvora seca”, mas sim por não conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo. Assim, da mesma maneira que este não consegue ler enquanto ouve musica, também não consegue procriar enquanto pratica o amor.
5- Cortes de papel doem que se farta – Falso. Ser baleado numa rótula dói que se farta. Cortes de papel são apenas os “primos pobres” das dores a sério.
6- Fornos de Algodres é “a Paris ibérica” – Falso. Esta ideia, não só falsa como estúpida, surgiu pela primeira vez num livro de Margarida Rebelo Pinto, e não tardou a proliferar pela literatura light portuguesa.
7- Vestir a roupa do avesso protege-nos da má sorte – Verdadeiro. Confesso que julgo este mito verdadeiro, pois desde menino que me visto de tal forma e apenas por uma vez vi um rim meu ser roubado por um cigano.
8- Algures na fronteira entre o Parque da Cidade e a avenida da Boavista existe um parque naturista – Falso. São apenas prostitutas a laborar.
(…)
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Um dia na vida do neotérico cidadão Guilherme Silva
Acordo de manhã, e em busca de um pouco de informação e lazer sento-me ao computador enquanto me preparo para mais um árdua jornada de labor. Visito o meu mail na esperança que Jesus me tenha respondido à prece da noite volvida, e tenha finalmente arranjado maneira de me explicar como sintonizar os canais nas televisões cá de casa. De seguida visito o site da BBC em busca da excelência dos seus conteúdos. Minutos depois, mais satisfeito e em harmonia com o meu ser, desligo o computador e parto. Obrigado Big Breasted Chicks.
No autocarro, na tentativa de me abstrair de conversas enfadonhas e descoordenadas sento-me a ler “Eurico o presbítero” de Alexandre Herculano. Vinte minutos volvidos ainda miro a capa, sem conseguir pronunciar “presbítero”, tão pouco saber o seu significado. Chego à faculdade pouco mais tarde, mais esclarecido e realizado. “Deve ser um fruto.”, concluí.
Durante as aulas dou asas à minha essência, e divago sobre paixões e sonhos. Adoro cinema, salto em altura, música…Gosto especialmente das baladas do George Michael, e num exercício de auto-conservação vejo-me obrigado a gostar de papas de sarrabulho, de modo a garantir uma réstia que seja de virilidade no meu ser.
Adoraria também viajar, mas infelizmente não posso. Temo que em plena capital europeia, buscando um pouco de relax numa casa de má fama, dê de caras com a minha prima Cláudia, meia despida e enroscada a uma colher-de-pau. A crise toca a todos, e eu bem o sei.
Ao final da tarde, já em casa e de novo em frente ao computador, encomendo um toque real para o telemóvel num qualquer site manhoso publicitado na televisão em horários esquisitos. Duas horas mais tarde tocam-me à campainha e é-me apresentado o Borges, encarregue de me fazer um toque rectal. Publicidade enganosa ou simples falha de comunicação? Sinceramente não sei, mas não apreciei.
Já de madrugada e ainda no computador (“ahh, daí aquela barriga!”), entro no messenger para ter conversas que normalmente não me levam a lado algum. Muitas vezes, ao fim de escassos minutos, acabo reanimado pela minha mãe, depois de mais um ataque epiléptico provocado pelos berrantes emoticons. Pouco depois e agora a soro, volto a adormecer, ansiando pelo despertar de um novo dia.
Ain’t life a bitch?
No autocarro, na tentativa de me abstrair de conversas enfadonhas e descoordenadas sento-me a ler “Eurico o presbítero” de Alexandre Herculano. Vinte minutos volvidos ainda miro a capa, sem conseguir pronunciar “presbítero”, tão pouco saber o seu significado. Chego à faculdade pouco mais tarde, mais esclarecido e realizado. “Deve ser um fruto.”, concluí.
Durante as aulas dou asas à minha essência, e divago sobre paixões e sonhos. Adoro cinema, salto em altura, música…Gosto especialmente das baladas do George Michael, e num exercício de auto-conservação vejo-me obrigado a gostar de papas de sarrabulho, de modo a garantir uma réstia que seja de virilidade no meu ser.
Adoraria também viajar, mas infelizmente não posso. Temo que em plena capital europeia, buscando um pouco de relax numa casa de má fama, dê de caras com a minha prima Cláudia, meia despida e enroscada a uma colher-de-pau. A crise toca a todos, e eu bem o sei.
Ao final da tarde, já em casa e de novo em frente ao computador, encomendo um toque real para o telemóvel num qualquer site manhoso publicitado na televisão em horários esquisitos. Duas horas mais tarde tocam-me à campainha e é-me apresentado o Borges, encarregue de me fazer um toque rectal. Publicidade enganosa ou simples falha de comunicação? Sinceramente não sei, mas não apreciei.
Já de madrugada e ainda no computador (“ahh, daí aquela barriga!”), entro no messenger para ter conversas que normalmente não me levam a lado algum. Muitas vezes, ao fim de escassos minutos, acabo reanimado pela minha mãe, depois de mais um ataque epiléptico provocado pelos berrantes emoticons. Pouco depois e agora a soro, volto a adormecer, ansiando pelo despertar de um novo dia.
Ain’t life a bitch?
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Shakin' All Over
Ainda ofegante, reconduziu os revoltos cabelos de volta para trás da rubra orelha. Toda ela era fogo: o sangue corria-lhe mais quente que nunca, e a timidez dava-lhe um ar angelicamente indefeso.
Ela sempre adivinhara que este dia chegaria, que o momento aconteceria, e no âmago da sua insegurança só desejava não acabar enxovalhada.
Após ajustar a desgovernada blusa, de novo voltou a mira-lo. Ele sorria fraternamente, banhando-a de compaixão. Ela, enquanto apertava uma argola que se soltara, não deixava de pensar: “Como pude cair a seus pés?!?”.
Tenta erguer-se, mas os cansados joelhos aterram-na de novo. De novo o fita, e ele ainda a envolve em ternos olhares. Apesar de fugaz, para ele, todo o momento parecia prolongar-se eternamente.
Por fim, ela encontra hercúleas forças que batem a constrangedora gravidade, levanta-se, olha em volta, e agarra o salto-alto que se quebrara, precipitando a sua queda em plena via pública.
“- Tas a olhar? Nunca bistes? Uma pessoa já não pode cair que há logo festival…”
Ela sempre adivinhara que este dia chegaria, que o momento aconteceria, e no âmago da sua insegurança só desejava não acabar enxovalhada.
Após ajustar a desgovernada blusa, de novo voltou a mira-lo. Ele sorria fraternamente, banhando-a de compaixão. Ela, enquanto apertava uma argola que se soltara, não deixava de pensar: “Como pude cair a seus pés?!?”.
Tenta erguer-se, mas os cansados joelhos aterram-na de novo. De novo o fita, e ele ainda a envolve em ternos olhares. Apesar de fugaz, para ele, todo o momento parecia prolongar-se eternamente.
Por fim, ela encontra hercúleas forças que batem a constrangedora gravidade, levanta-se, olha em volta, e agarra o salto-alto que se quebrara, precipitando a sua queda em plena via pública.
“- Tas a olhar? Nunca bistes? Uma pessoa já não pode cair que há logo festival…”
segunda-feira, 3 de março de 2008
(...)
(…)
- E é como te digo pá: lá estava eu na minha vida, e a gaja sempre a fazer-me olhinhos. Nesta altura já me encontrava num impasse: fazia-lhe o filme ou via o jogo?
O Purovic tava a jogar por isso decidi ficar atento à bola…
- E afinal como foi o jogo?
- Fraquinho. Muitas faltas, não houve porrada nas bancadas, e no intervalo fui ao WC e perdi o show das cheerleaders. Não me sentia tão defraudado desde que fui ver a Tannhäuser ao Coliseu. Aquela soprano não prestava…
Enfim, acabei a noite na tasca do costume, tocado por bagaço da casa.
- Eu fui tocado pelo meu tio quando tinha 7 anos...
(silêncio desconfortável)
- Queres mesmo ter esta conversa?
- Não.
- Continuando: tava uma gaja bem gira na tasca, e também me tava a fazer olhinhos…
(…)
- E é como te digo pá: lá estava eu na minha vida, e a gaja sempre a fazer-me olhinhos. Nesta altura já me encontrava num impasse: fazia-lhe o filme ou via o jogo?
O Purovic tava a jogar por isso decidi ficar atento à bola…
- E afinal como foi o jogo?
- Fraquinho. Muitas faltas, não houve porrada nas bancadas, e no intervalo fui ao WC e perdi o show das cheerleaders. Não me sentia tão defraudado desde que fui ver a Tannhäuser ao Coliseu. Aquela soprano não prestava…
Enfim, acabei a noite na tasca do costume, tocado por bagaço da casa.
- Eu fui tocado pelo meu tio quando tinha 7 anos...
(silêncio desconfortável)
- Queres mesmo ter esta conversa?
- Não.
- Continuando: tava uma gaja bem gira na tasca, e também me tava a fazer olhinhos…
(…)
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Woodstock
Sou feito de madeira. É verdade; suspeitava-o há anos; descobri-o há dias.
Desde os tempos em que o meu pai me pregava (literalmente) à cadeira quando me recusava a comer a sopa até ao fim, e a minha mãe me chegava fogo ao cabelo quando tirava notas abaixo de 4 no ensino básico, que suspeito ser da mesma essência das árvores (e da casa do porquinho do meio).
Depois chegou a adolescência e a minha suspeição viu-se cada vez mais fundamentada. A minha pele tornou-se mais rugosa (não gosto de me gabar, mas arrisco dizer que com um ligeiro "toque" do mais fino pinho), e quando a jogar à bola, os meus colegas diziam que “tinha pés que mais pareciam tábuas”.
Agora, em pleno test-drive da vida adulta, vejo provada a minha teoria. Como a madeira, passo a vida teso e sem onde cair morto, e as mulheres acusam-me de uma insensibilidade e de uma preocupante incapacidade de agir, tão habitual nas matérias mortas. Por fim, como é apanágio das árvores e seus derivados, também eu atraio bichas quando vou sair à noite.
Enfim, se alguém estiver interessado nuns bonitos brincos de madeira, tenho um dedo para vender…
Desde os tempos em que o meu pai me pregava (literalmente) à cadeira quando me recusava a comer a sopa até ao fim, e a minha mãe me chegava fogo ao cabelo quando tirava notas abaixo de 4 no ensino básico, que suspeito ser da mesma essência das árvores (e da casa do porquinho do meio).
Depois chegou a adolescência e a minha suspeição viu-se cada vez mais fundamentada. A minha pele tornou-se mais rugosa (não gosto de me gabar, mas arrisco dizer que com um ligeiro "toque" do mais fino pinho), e quando a jogar à bola, os meus colegas diziam que “tinha pés que mais pareciam tábuas”.
Agora, em pleno test-drive da vida adulta, vejo provada a minha teoria. Como a madeira, passo a vida teso e sem onde cair morto, e as mulheres acusam-me de uma insensibilidade e de uma preocupante incapacidade de agir, tão habitual nas matérias mortas. Por fim, como é apanágio das árvores e seus derivados, também eu atraio bichas quando vou sair à noite.
Enfim, se alguém estiver interessado nuns bonitos brincos de madeira, tenho um dedo para vender…
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
The World is Yours
Há meses acordei com uma fulminante dor de cabeça. Tratava-se de um novo sonho a formar-se. Recostei-me na cama, tomei dois tragos do rico ar, e deixei as ideias assentar. O sonho desvendara-se: queria ser Chefe do Mundo.
Sonhava ordenar, ser respeitado, amado e temido. Ter acesso a mundos e fundos; mulheres, terras, barcos (?), e toda a colecção do MacGyver em DVD.
Os meses passaram, os exames vieram, as notas seguiram-se, e o sonho cedo se desvaneceu. Chefe de mesa já serviria…
Há semanas, enquanto ouvia uma ou outra faixa do Tom Waits, o mesmo se sucedeu: um novo sonho se formava na minha cabeça.
Desta vez precisei de bem mais que o rico ar para fazer as ideias assentar, e só depois de uma injecção de morfina na testa, o novo sonho se clareava. Sonhava agora ser um ilustre bêbado: amado por muitos, odiado por outros; admirado por uns tantos, e roubado à má fila pelos amigos do alheio que vagueiam pelo metro.
Em casa, acercado de uma garrafa do mais cáustico rum, comecei a laborar em prol do meu mais recente sonho; mas cedo desisti. Não tolerava o enjoo, e começara uma doentia discussão com um guardanapo. Isto ainda sem sequer ter acabado de extrair a rolha.
Há dias um novo sonho me fulminou. Sonhava agora ser um poderoso industrial, produtor de sabonetes. De novo, cedo o abandonei. Confiar-me questões de higiene seria como confiar num barbeiro careca; seria como confiar num dentista sem dentes; seria como confiar uma adega ao Manuel Vilarinho…
Enfim, deixei-me de sonhos.
Uma vez lowlife, para sempre lowlife…
Sonhava ordenar, ser respeitado, amado e temido. Ter acesso a mundos e fundos; mulheres, terras, barcos (?), e toda a colecção do MacGyver em DVD.
Os meses passaram, os exames vieram, as notas seguiram-se, e o sonho cedo se desvaneceu. Chefe de mesa já serviria…
Há semanas, enquanto ouvia uma ou outra faixa do Tom Waits, o mesmo se sucedeu: um novo sonho se formava na minha cabeça.
Desta vez precisei de bem mais que o rico ar para fazer as ideias assentar, e só depois de uma injecção de morfina na testa, o novo sonho se clareava. Sonhava agora ser um ilustre bêbado: amado por muitos, odiado por outros; admirado por uns tantos, e roubado à má fila pelos amigos do alheio que vagueiam pelo metro.
Em casa, acercado de uma garrafa do mais cáustico rum, comecei a laborar em prol do meu mais recente sonho; mas cedo desisti. Não tolerava o enjoo, e começara uma doentia discussão com um guardanapo. Isto ainda sem sequer ter acabado de extrair a rolha.
Há dias um novo sonho me fulminou. Sonhava agora ser um poderoso industrial, produtor de sabonetes. De novo, cedo o abandonei. Confiar-me questões de higiene seria como confiar num barbeiro careca; seria como confiar num dentista sem dentes; seria como confiar uma adega ao Manuel Vilarinho…
Enfim, deixei-me de sonhos.
Uma vez lowlife, para sempre lowlife…
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Life, Part One
Nasci no dia 31 de Agosto de 1987. Dizem-me que não foi uma segunda-feira muito quente, nem muito fria. Foi assim-assim.
A minha mãe diz-me que caí do berço durante o meu primeiro ano. Acredito que é por isso que agora sofro de vertigens, e tenho excelente visão nocturna.
Aos 3 anos tive um irmão gémeo.
Aquando dos meus 8 anos (sim, passei o período entre os meus 3 e os 8 anos a hibernar), enquanto brincava a tentar fugir de caracóis em frente a minha casa, avistei um OVNI que me sobrevoava. Foi um ponto de viragem na minha vida, apesar de mais tarde ter descoberto que não passava de um saco-plástico.
Tinha 9 anos quando descobri as mulheres e o sexo. Chamava-se Juggs Magazine, e custou-me 250 escudos no café Green Stone.
Aos 10 anos aprendi a falar.
Aos 11 anos proibiram-me de falar.
Foi aquando dos meus 11 anos que enveredei pelo futebol. Fui bem acolhido no seio da equipa, e rapidamente nomeado craque e “jovem promessa” do plantel. Receosos que me lesionasse, proibiram-me de jogar.
A minha família adoptou um gato quando tinha 12 anos. Astuto como todos os gatos, rapidamente tomou o meu lugar no seio da família. Agora na marquise, as minhas noites passaram a ser bem mais frias.
Tinha 13 anos quando finalmente conheci uma rapariga.
Agora, com 20 anos, e graças à forte medicação que o meu psiquiatra me receitou, não me lembro do que foi a minha vida nos últimos 7 anos. Mas as cicatrizes nas costas não me deixam agourar boas coisas…
A minha mãe diz-me que caí do berço durante o meu primeiro ano. Acredito que é por isso que agora sofro de vertigens, e tenho excelente visão nocturna.
Aos 3 anos tive um irmão gémeo.
Aquando dos meus 8 anos (sim, passei o período entre os meus 3 e os 8 anos a hibernar), enquanto brincava a tentar fugir de caracóis em frente a minha casa, avistei um OVNI que me sobrevoava. Foi um ponto de viragem na minha vida, apesar de mais tarde ter descoberto que não passava de um saco-plástico.
Tinha 9 anos quando descobri as mulheres e o sexo. Chamava-se Juggs Magazine, e custou-me 250 escudos no café Green Stone.
Aos 10 anos aprendi a falar.
Aos 11 anos proibiram-me de falar.
Foi aquando dos meus 11 anos que enveredei pelo futebol. Fui bem acolhido no seio da equipa, e rapidamente nomeado craque e “jovem promessa” do plantel. Receosos que me lesionasse, proibiram-me de jogar.
A minha família adoptou um gato quando tinha 12 anos. Astuto como todos os gatos, rapidamente tomou o meu lugar no seio da família. Agora na marquise, as minhas noites passaram a ser bem mais frias.
Tinha 13 anos quando finalmente conheci uma rapariga.
Agora, com 20 anos, e graças à forte medicação que o meu psiquiatra me receitou, não me lembro do que foi a minha vida nos últimos 7 anos. Mas as cicatrizes nas costas não me deixam agourar boas coisas…
domingo, 6 de janeiro de 2008
É psicológico
O frio é psicológico, disseram-me; e eu acreditei. Acreditei e acabei por ter de cortar um dedo do pé, que de tão gelado apodrecera.
A solidão é psicológica, explicaram-me; e eu acreditei. Acreditei e acabei por dar um nome ao dedo que recentemente perdera (o Tadeu. Um bocado calado, mas bom ouvinte).
A perfuração pulmonar é psicológica, juraram-me; e eu acreditei. Acreditei, e julgo que o facto de estar a cuspir sangue tem algo a ver com isso.
O amor é psicológico, convenceram-me; e eu acreditei. Acreditei e acabei por pagar 30€ na mesma.
Os murros são psicológicos, contaram-me; e eu acreditei. Acreditei e ainda me falta achar três dentes e parte da minha dignidade.
O álcool é psicológico, li algures; e eu acreditei. Acreditei e acordei nu no porto de Leixões.
As “Tardes da Júlia” são psicológicas, ouvi dizer; e eu acreditei. Acreditei e ainda sangro do nariz sempre que mexo a cabeça muito rápido.
A luz solar é psicológica, ouvi no rádio; e eu acreditei. Acreditei e agora escrevo este post com o meu novo teclado com alfabeto Braile.
Blogs são fixes, disse-me um vizinho; e eu acreditei. Acreditei e agora não tenho amigos.
A solidão é psicológica, explicaram-me; e eu acreditei. Acreditei e acabei por dar um nome ao dedo que recentemente perdera (o Tadeu. Um bocado calado, mas bom ouvinte).
A perfuração pulmonar é psicológica, juraram-me; e eu acreditei. Acreditei, e julgo que o facto de estar a cuspir sangue tem algo a ver com isso.
O amor é psicológico, convenceram-me; e eu acreditei. Acreditei e acabei por pagar 30€ na mesma.
Os murros são psicológicos, contaram-me; e eu acreditei. Acreditei e ainda me falta achar três dentes e parte da minha dignidade.
O álcool é psicológico, li algures; e eu acreditei. Acreditei e acordei nu no porto de Leixões.
As “Tardes da Júlia” são psicológicas, ouvi dizer; e eu acreditei. Acreditei e ainda sangro do nariz sempre que mexo a cabeça muito rápido.
A luz solar é psicológica, ouvi no rádio; e eu acreditei. Acreditei e agora escrevo este post com o meu novo teclado com alfabeto Braile.
Blogs são fixes, disse-me um vizinho; e eu acreditei. Acreditei e agora não tenho amigos.
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Dr. Strangelove
Quem me conhece sabe que não sou nenhum love expert.
As minhas capacidades de aconselhamento amoroso são quase nulas: repetem-se sugestões como “Vê o Closer e compra a Playboy que isso passa.”, ou simplesmente “Sabes, conheço um gajo que vende cianeto…”
Paralelamente, não sou nenhum Deus do flirt. Confio o meu pescoço e toilette à colónia barata, e em baladas românticas como toques de telemóvel. Para mais, desde que puseram guardas à porta das primárias, a coisa tem vindo a piorar...
Como já referi, Jesus não gosta especialmente da minha pessoa. Não me chegassem já os referidos handicaps, presenteou-me também com uma quase total incapacidade de “ler os sinais” do sexo oposto. Episódios frequentes envolvem respostas como “Sabes que gostas!” a singelos perguntar de horas por parte de velhinhas octogenárias, e “Não obrigado. Já é tarde e deves tar cansada...” a convites para visitar apartamentos de loiras madrugada dentro.
De facto, este meu ultimo handicap tem vindo a generalizar-se. Ultimamente, quando em frente ao espelho, tendo a não conseguir perceber quais as verdadeiras intenções do individuo que deslindo.
Acho que tenho medo…
As minhas capacidades de aconselhamento amoroso são quase nulas: repetem-se sugestões como “Vê o Closer e compra a Playboy que isso passa.”, ou simplesmente “Sabes, conheço um gajo que vende cianeto…”
Paralelamente, não sou nenhum Deus do flirt. Confio o meu pescoço e toilette à colónia barata, e em baladas românticas como toques de telemóvel. Para mais, desde que puseram guardas à porta das primárias, a coisa tem vindo a piorar...
Como já referi, Jesus não gosta especialmente da minha pessoa. Não me chegassem já os referidos handicaps, presenteou-me também com uma quase total incapacidade de “ler os sinais” do sexo oposto. Episódios frequentes envolvem respostas como “Sabes que gostas!” a singelos perguntar de horas por parte de velhinhas octogenárias, e “Não obrigado. Já é tarde e deves tar cansada...” a convites para visitar apartamentos de loiras madrugada dentro.
De facto, este meu ultimo handicap tem vindo a generalizar-se. Ultimamente, quando em frente ao espelho, tendo a não conseguir perceber quais as verdadeiras intenções do individuo que deslindo.
Acho que tenho medo…
domingo, 28 de outubro de 2007
Arrumações
Arrumar o quarto é detestável, agonizante e perigoso. No meio de roupa, livros, algemas e Barbies, há sempre aqueles pequenos objectos pontiagudos que nos cortam os dedos quando não estamos a olhar. Pior que arrumar um quarto, apenas arrumar dois quartos ao som das “piadas” do Nilton.
Mas arrumar o quarto pode também trazer-nos óptimas reminiscências. Foi o que me aconteceu esta tarde. Ao fim de cinco minutos de arrumação, a minha enfadonha cara de tédio transformara-se já, espelhando agora grande alegria e regozijo. O meu quarto, eterno monte de entulho encarnado, revelara-se um perfeito álbum de recordações. Qual ADN, qual biografia ou álbum de fotografias, o meu quarto contava a minha vida como nada e ninguém.
Num canto a minha primeira action figure do Dragon Ball, noutro o meu primeiro Diablo. Numa estante a minha medalha de 27º lugar no corta-mato da escola, ao lado do meu primeiro dente de leite, que por sua vez está encostado ao meu primeiro dedo "de leite”, nome que lhe dei para atenuar a sua perda. Perto, na parede, o buraco por onde um dia pensei a minha fuga. Na cama a almofada que guardo desde bebé, no meu guarda-roupa a minha primeira namorada…
Incrível. Eu revia-me no meu quarto.
O meu quarto é-me.
Eu sou o meu quarto…
Mas arrumar o quarto pode também trazer-nos óptimas reminiscências. Foi o que me aconteceu esta tarde. Ao fim de cinco minutos de arrumação, a minha enfadonha cara de tédio transformara-se já, espelhando agora grande alegria e regozijo. O meu quarto, eterno monte de entulho encarnado, revelara-se um perfeito álbum de recordações. Qual ADN, qual biografia ou álbum de fotografias, o meu quarto contava a minha vida como nada e ninguém.
Num canto a minha primeira action figure do Dragon Ball, noutro o meu primeiro Diablo. Numa estante a minha medalha de 27º lugar no corta-mato da escola, ao lado do meu primeiro dente de leite, que por sua vez está encostado ao meu primeiro dedo "de leite”, nome que lhe dei para atenuar a sua perda. Perto, na parede, o buraco por onde um dia pensei a minha fuga. Na cama a almofada que guardo desde bebé, no meu guarda-roupa a minha primeira namorada…
Incrível. Eu revia-me no meu quarto.
O meu quarto é-me.
Eu sou o meu quarto…
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Sub-90
09:23.
Esperava pelo autocarro que me levaria para outras bandas e o dia até que nem me corria mal: tomara um bom pequeno-almoço, e no caminho para a paragem não me cruzara com nenhum javali.
Sozinho, deixei-me levar pela preguiça e fechei os olhos por mais um pouco. Foi quando senti alguém acercar-se de mim e ao meu lado sentar-se. Era um velhinho.
Frágil, lento e amável sorriu para mim. Lembrei-me que desde pequeno os meus pais me aconselhavam a não cumprimentar velhinhos, pois eles eram “manhosos, traiçoeiros e velhinhos”, mas num rasgo de simpatia soltei um “bom dia”.
Visivelmente regozijando, o velhinho todo ele sorriu.
“Bom dia! Tá frio hoje, não?”, perguntou-me animado. Respondi-lhe afirmativamente, e num rasgo de sabedoria popular acrescentei “E parece que vem aí trovoada. Uma pessoa já não consegue perceber o tempo. Tá tudo trocado, e a culpa é do Bush, aquele bandido…”.
Acabara de assinar a minha sentença e nem sequer me apercebera. Inocentemente desencadeara uma conversa que agora sei não queria ter. Da política à columbofilia, do futebol ás técnicas de captação de aguás subterrâneas, divagamos um pouco sobre tudo. A cabeça começara a doer-me como nunca. Desistira de falar e limitara-me a ouvir.
Quinze minutos volvidos e encontrava-me em estado de catarse. Deixara de sentir os membros, e sabia o colapso inevitável. Fitei o velhinho uma última vez. Sorria.
Desmaiei.
Acordei horas mais tarde, despenteado e gelado, deitado no porto de Leixões. A carteira e o telemóvel continuavam-me nos bolsos, mas estava descalço. O velhinho roubara-me as sapatilhas.
“Raios! Raios pós velhinhos e a sua fixação por sapatilhas…”.
(A minha verdadeira experiência pode vagamente variar da aqui escrita.)
Esperava pelo autocarro que me levaria para outras bandas e o dia até que nem me corria mal: tomara um bom pequeno-almoço, e no caminho para a paragem não me cruzara com nenhum javali.
Sozinho, deixei-me levar pela preguiça e fechei os olhos por mais um pouco. Foi quando senti alguém acercar-se de mim e ao meu lado sentar-se. Era um velhinho.
Frágil, lento e amável sorriu para mim. Lembrei-me que desde pequeno os meus pais me aconselhavam a não cumprimentar velhinhos, pois eles eram “manhosos, traiçoeiros e velhinhos”, mas num rasgo de simpatia soltei um “bom dia”.
Visivelmente regozijando, o velhinho todo ele sorriu.
“Bom dia! Tá frio hoje, não?”, perguntou-me animado. Respondi-lhe afirmativamente, e num rasgo de sabedoria popular acrescentei “E parece que vem aí trovoada. Uma pessoa já não consegue perceber o tempo. Tá tudo trocado, e a culpa é do Bush, aquele bandido…”.
Acabara de assinar a minha sentença e nem sequer me apercebera. Inocentemente desencadeara uma conversa que agora sei não queria ter. Da política à columbofilia, do futebol ás técnicas de captação de aguás subterrâneas, divagamos um pouco sobre tudo. A cabeça começara a doer-me como nunca. Desistira de falar e limitara-me a ouvir.
Quinze minutos volvidos e encontrava-me em estado de catarse. Deixara de sentir os membros, e sabia o colapso inevitável. Fitei o velhinho uma última vez. Sorria.
Desmaiei.
Acordei horas mais tarde, despenteado e gelado, deitado no porto de Leixões. A carteira e o telemóvel continuavam-me nos bolsos, mas estava descalço. O velhinho roubara-me as sapatilhas.
“Raios! Raios pós velhinhos e a sua fixação por sapatilhas…”.
(A minha verdadeira experiência pode vagamente variar da aqui escrita.)
sábado, 22 de setembro de 2007
História de Portugal - Director’s cut
Sonho estranho o que tive a noite passada.
Sonhei que viajava no tempo, “aterrando” em momentos decisivos da história de Portugal, e sempre encarnando figuras de grande vulto e importância.
Comecei por acordar em pleno século XII. Estávamos em meados de 1128, e a Batalha de São Mamede adivinhava-se. Encarnara no corpo de D. Afonso Henriques e encontrava-me frente a frente com minha mãe e inimiga, D. Teresa.
“Mãe, ordeno que saias de território Portucalense, e que contigo arrastes as infames hostes de castelhanos que te acompanham! Se não o fizeres, juro por Deus que farei abater sobre ti a mais pesada das vinganças.”, disse sempre a fitando.
“E eu como tua mãe, ordeno que tu e teus homens pouseis vossas armas, e capituleis perante mim!”, retorquiu D. Teresa. A sua voz atingiu-me como uma lança, e seu olhar fulminou-me; não resisti. “Sim sim mãezinha, assim o farei. Desculpa-me por favor a arrogância... Já agora, arranjas-me por favor 2 moeditas para ir até à taberna com uns amigos?”
Meu Deus, quão fraco fora. Acabara de entregar Portugal a Castela…
Com a vergonha colapsei, e em nova era voltei a acordar.
Encontrava-me agora no final do século XV. Era Vasco da Gama e preparava-me para partir na épica viagem em descoberta das Índias. Antes de embarcar perguntei a meu irmão Paulo onde estavam as pastilhas para o enjoo. “O que é isso?”, perguntou-me ele espantado. “Não me digas que não temos! Assim não parto. Sabes que todo o reboliço marítimo me dá a volta à tripa…” retorqui irritado. Virei costas ao porto e dirigi-me para a taberna mais próxima, procurando companhia para uma muito apetecida partida de dominó.
De novo colapsei envergonhado. De novo envergonhara a nação lusitana…
Episódios semelhantes repetiram-se toda a noite. Fui D. Pedro IV e permaneci no Brasil, devoto a longos banhos de sol e caipirinhas, entregando Portugal a meu absolutista irmão; fui Almeida Garrett, mas abandonei a escrita pois não me agradava escrever à luz das velas (sempre tive uma vista fraquinha!); fui Salazar e não caí da cadeira; fui Eládio Climaco e rejeitei apresentar os “Jogos sem fronteiras”…
Enfim, vergonhoso…
Sonhei que viajava no tempo, “aterrando” em momentos decisivos da história de Portugal, e sempre encarnando figuras de grande vulto e importância.
Comecei por acordar em pleno século XII. Estávamos em meados de 1128, e a Batalha de São Mamede adivinhava-se. Encarnara no corpo de D. Afonso Henriques e encontrava-me frente a frente com minha mãe e inimiga, D. Teresa.
“Mãe, ordeno que saias de território Portucalense, e que contigo arrastes as infames hostes de castelhanos que te acompanham! Se não o fizeres, juro por Deus que farei abater sobre ti a mais pesada das vinganças.”, disse sempre a fitando.
“E eu como tua mãe, ordeno que tu e teus homens pouseis vossas armas, e capituleis perante mim!”, retorquiu D. Teresa. A sua voz atingiu-me como uma lança, e seu olhar fulminou-me; não resisti. “Sim sim mãezinha, assim o farei. Desculpa-me por favor a arrogância... Já agora, arranjas-me por favor 2 moeditas para ir até à taberna com uns amigos?”
Meu Deus, quão fraco fora. Acabara de entregar Portugal a Castela…
Com a vergonha colapsei, e em nova era voltei a acordar.
Encontrava-me agora no final do século XV. Era Vasco da Gama e preparava-me para partir na épica viagem em descoberta das Índias. Antes de embarcar perguntei a meu irmão Paulo onde estavam as pastilhas para o enjoo. “O que é isso?”, perguntou-me ele espantado. “Não me digas que não temos! Assim não parto. Sabes que todo o reboliço marítimo me dá a volta à tripa…” retorqui irritado. Virei costas ao porto e dirigi-me para a taberna mais próxima, procurando companhia para uma muito apetecida partida de dominó.
De novo colapsei envergonhado. De novo envergonhara a nação lusitana…
Episódios semelhantes repetiram-se toda a noite. Fui D. Pedro IV e permaneci no Brasil, devoto a longos banhos de sol e caipirinhas, entregando Portugal a meu absolutista irmão; fui Almeida Garrett, mas abandonei a escrita pois não me agradava escrever à luz das velas (sempre tive uma vista fraquinha!); fui Salazar e não caí da cadeira; fui Eládio Climaco e rejeitei apresentar os “Jogos sem fronteiras”…
Enfim, vergonhoso…
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
Where the wild roses grow
As pálpebras fechadas e ainda assim o Sol me iluminava a alma. Ah, como é bom acordar com o terno abraço do Sol…
Estupefacto.
Estupefacto acordei num jardim. Lembrava-me de adormecer no aconchego do quarto, e no entanto acordara num jardim. Era o mais belo que já vira.
Acordara sobre uma cama de rosas, e nunca me sentira tão confortável. Margaridas, lilases, lavanda, e outras tantas flores me rodeavam também, e que rico aroma me ofereciam pela manhã.
Os meus vilipendiadores vizinhos, trocara-os por coelhos, esquilos e abelhas. Quão bela vizinhança tinha agora… Amigáveis e curiosos rodeavam-me, nada me exigindo senão a pacifica coexistência. Atrás das rochas a água brotava incessantemente, criando um imenso lago onde centenas de peixes de todas as cores e feitios me davam as boas vindas.
Tudo tão perfeito. A calma, a cor, a paz, a Natureza…Desejava não mais dali sair.
Rendido à magnificência da paisagem, sentei-me, abri o meu saco e tirei o meu portátil. “Que local perfeito. Perfeito para sacar umas músicas e jogar Counter Strike. Graças a Deus a net wireless!”
Simplesmente perfeito…
Estupefacto.
Estupefacto acordei num jardim. Lembrava-me de adormecer no aconchego do quarto, e no entanto acordara num jardim. Era o mais belo que já vira.
Acordara sobre uma cama de rosas, e nunca me sentira tão confortável. Margaridas, lilases, lavanda, e outras tantas flores me rodeavam também, e que rico aroma me ofereciam pela manhã.
Os meus vilipendiadores vizinhos, trocara-os por coelhos, esquilos e abelhas. Quão bela vizinhança tinha agora… Amigáveis e curiosos rodeavam-me, nada me exigindo senão a pacifica coexistência. Atrás das rochas a água brotava incessantemente, criando um imenso lago onde centenas de peixes de todas as cores e feitios me davam as boas vindas.
Tudo tão perfeito. A calma, a cor, a paz, a Natureza…Desejava não mais dali sair.
Rendido à magnificência da paisagem, sentei-me, abri o meu saco e tirei o meu portátil. “Que local perfeito. Perfeito para sacar umas músicas e jogar Counter Strike. Graças a Deus a net wireless!”
Simplesmente perfeito…
terça-feira, 18 de setembro de 2007
Dona Isaura
Não conseguia dormir. Há dias que passava noites a fio a pensar; a pensar numa mulher que me destroçara, me desarmara. Decidi procurar auxilio; procurar um ombro amigo que me ouvisse e aconselhasse.
“Mulheres são como flores meu caro. Tens de lhes dar calor, carinho e atenção se as queres ver florescer.”, disse-me carinhosamente Dona Isaura, a minha confidente. “Tens que te mostrar carente e sensível, mas forte e decidido. Nunca sejas arrogante ou a pressiones, e nunca, nunca mesmo lhe levantes a voz.”.
Desde catraio que recorro à Dona Isaura quando me encontro siderado e confuso. Ela parece compreender-me, e a sua voz é como um bálsamo para a minha alma. Uma verdadeira amiga, a Dona Isaura.
“Ouve Manel, basicamente tens que lhe mostrar que naquele momento só ela importa. Que ela é tudo para ti. Que ela é a tua Mais Que Tudo!”, rematou Dona Isaura em tom de conclusão.
“E assim conseguirei o que quero dela?”, perguntei timidamente.
“Sim, assim ela marca-te uma consulta com a Dra. Cândida sem que tenhas que esperar 3 meses. Ela põe-te logo no topo da lista de espera. E se não conseguires com falinhas mansas, dá-lhe discretamente 10€ que ela faz-te isso. Acredita, essa recepcionista Júlia é uma vigarista…Aliás, nesse centro de saúde são todas umas vigaristas.”
Já mais confiante, despedi-me de Dona Isaura, sempre respeitosamente curvado e sem nunca a fitar. Lancei-lhe um tímido “Adeus e obrigado.”, e com eles os 30€ que lhe devia pelos conselhos.
Uma verdadeira amiga, a Dona Isaura.
“Mulheres são como flores meu caro. Tens de lhes dar calor, carinho e atenção se as queres ver florescer.”, disse-me carinhosamente Dona Isaura, a minha confidente. “Tens que te mostrar carente e sensível, mas forte e decidido. Nunca sejas arrogante ou a pressiones, e nunca, nunca mesmo lhe levantes a voz.”.
Desde catraio que recorro à Dona Isaura quando me encontro siderado e confuso. Ela parece compreender-me, e a sua voz é como um bálsamo para a minha alma. Uma verdadeira amiga, a Dona Isaura.
“Ouve Manel, basicamente tens que lhe mostrar que naquele momento só ela importa. Que ela é tudo para ti. Que ela é a tua Mais Que Tudo!”, rematou Dona Isaura em tom de conclusão.
“E assim conseguirei o que quero dela?”, perguntei timidamente.
“Sim, assim ela marca-te uma consulta com a Dra. Cândida sem que tenhas que esperar 3 meses. Ela põe-te logo no topo da lista de espera. E se não conseguires com falinhas mansas, dá-lhe discretamente 10€ que ela faz-te isso. Acredita, essa recepcionista Júlia é uma vigarista…Aliás, nesse centro de saúde são todas umas vigaristas.”
Já mais confiante, despedi-me de Dona Isaura, sempre respeitosamente curvado e sem nunca a fitar. Lancei-lhe um tímido “Adeus e obrigado.”, e com eles os 30€ que lhe devia pelos conselhos.
Uma verdadeira amiga, a Dona Isaura.
domingo, 9 de setembro de 2007
Psicologia
Desde cedo comecei a interessar-me pela psicologia. Desejava conhecer as entranhas à mente humana, saber o que vai na cabeça dos outros, principalmente daqueles que usam o colete retro-reflector no assento do automóvel.
Ao ver aproximarem-se os derradeiros dias da minha turbulenta passagem pelo ensino secundário, decidi experimentar um pouco de todas as muitas profissões por onde ainda considerava ingressar. Experimentei ser pianista, mas disseram-me ter os dedos muito gordos. Experimentei ser taxidermista, mas todos aqueles coelhinhos mortos faziam-me lembrar coelhinhos mortos, e só Deus sabe quão triste fico na presença de tal cenário. Experimentei ser chef de cozinha, mas tudo que saía do meu forno ia muito em contra com as leis da Natureza e de Deus…
Depois de dezoito profissões tentadas, depois de dezoito calamitosos falhanços, depois de inúmeros pratos/mutantes encarcerados no meu armário, cheguei finalmente à vez da psicologia. Através de um simples inquérito que idealizara, parti numa alucinante demanda pelo conhecimento da mente humana.
“A capacidade de voar, ou o poder de ler a mente humana. Se pudesses ter um destes dois super-poderes, qual escolherias?”, foi a questão que apresentei ás quarenta voluntárias “cobaias” que à pressa reuni. Com tal projecto pretendia ficar a conhecer melhor o Homem, seus sonhos e ambições.
Os resultados foram surpreendentes e arrasadores: um dos inquiridos respondeu “O que é voar?”, outro “A sério Guilherme, nunca mais me convides para “almoçar” contigo!”, outro questionou preocupadamente “É normal eu ficar com uma dor de cabeça depois de ler a pergunta?”, e os restantes 37 escreveram “Vai pó …!”
Apesar de a amar, parece que o meu futuro também não vai passar pela psicologia...
Ao ver aproximarem-se os derradeiros dias da minha turbulenta passagem pelo ensino secundário, decidi experimentar um pouco de todas as muitas profissões por onde ainda considerava ingressar. Experimentei ser pianista, mas disseram-me ter os dedos muito gordos. Experimentei ser taxidermista, mas todos aqueles coelhinhos mortos faziam-me lembrar coelhinhos mortos, e só Deus sabe quão triste fico na presença de tal cenário. Experimentei ser chef de cozinha, mas tudo que saía do meu forno ia muito em contra com as leis da Natureza e de Deus…
Depois de dezoito profissões tentadas, depois de dezoito calamitosos falhanços, depois de inúmeros pratos/mutantes encarcerados no meu armário, cheguei finalmente à vez da psicologia. Através de um simples inquérito que idealizara, parti numa alucinante demanda pelo conhecimento da mente humana.
“A capacidade de voar, ou o poder de ler a mente humana. Se pudesses ter um destes dois super-poderes, qual escolherias?”, foi a questão que apresentei ás quarenta voluntárias “cobaias” que à pressa reuni. Com tal projecto pretendia ficar a conhecer melhor o Homem, seus sonhos e ambições.
Os resultados foram surpreendentes e arrasadores: um dos inquiridos respondeu “O que é voar?”, outro “A sério Guilherme, nunca mais me convides para “almoçar” contigo!”, outro questionou preocupadamente “É normal eu ficar com uma dor de cabeça depois de ler a pergunta?”, e os restantes 37 escreveram “Vai pó …!”
Apesar de a amar, parece que o meu futuro também não vai passar pela psicologia...
domingo, 2 de setembro de 2007
Geminus
Ficam desde já avisados os mais cépticos leitores, que o seguinte relato é totalmente verídico. Paladino da Verdade, nunca me permiti adulterar factos da minha vida para gáudio e prazer do leitor. De tão verídicas, as minhas seguintes palavras são decerto merecedoras de serem para sempre guardadas nos vossos corações, no compartimento dos “Textos credíveis, e episódios marcantes do MacGyver”.
Tudo se passou num fim de tarde de Outubro. Era ainda um pequeno, indefeso e imaturo gaiato que havia começado a estudar a tabuada na escola e tinha ainda bastantes dificuldades. Nesse dia tinha chegado cedo a casa, vindo da entediante inspecção militar no dia da defesa nacional, e aproveitara o tempo livre para na clausura do meu quarto praticar a fascinante nova matéria. Envolto em números, um novo Euclides nascera naquele silencioso quarto. Só a minha caneta se ouvia, enquanto sangrava sobre o papel toda a misteriosa beleza da matemática.
Como se de uma facada no peito se tratasse, o telemóvel toca. Vicissitude dos tempos modernos, as chamadas grátis de novo me importunavam. Era o meu irmão gémeo.
“Guilherme, tas bem? Estou a sentir uma dor no peito e pensei que talvez te tivesses magoado.”, perguntou preocupado. “Sim, estou bem, mas estava bem melhor antes de me ligares.” respondi notoriamente irritado. Foi então que senti um ardor no peito e desviei a minha atenção para o local. Estava encharcado em sangue.
“Ah Diogo, afinal estou bastante ferido. Tenho um lápis cravado no peito uns bons 5 centímetros, e pelo aspecto ressequido do sangue já estou assim há um bom par de horas...Olha, provavelmente vou falecer, por isso logo à noite dá tu de comer ao peixe. Abraço…”
Tudo se passou num fim de tarde de Outubro. Era ainda um pequeno, indefeso e imaturo gaiato que havia começado a estudar a tabuada na escola e tinha ainda bastantes dificuldades. Nesse dia tinha chegado cedo a casa, vindo da entediante inspecção militar no dia da defesa nacional, e aproveitara o tempo livre para na clausura do meu quarto praticar a fascinante nova matéria. Envolto em números, um novo Euclides nascera naquele silencioso quarto. Só a minha caneta se ouvia, enquanto sangrava sobre o papel toda a misteriosa beleza da matemática.
Como se de uma facada no peito se tratasse, o telemóvel toca. Vicissitude dos tempos modernos, as chamadas grátis de novo me importunavam. Era o meu irmão gémeo.
“Guilherme, tas bem? Estou a sentir uma dor no peito e pensei que talvez te tivesses magoado.”, perguntou preocupado. “Sim, estou bem, mas estava bem melhor antes de me ligares.” respondi notoriamente irritado. Foi então que senti um ardor no peito e desviei a minha atenção para o local. Estava encharcado em sangue.
“Ah Diogo, afinal estou bastante ferido. Tenho um lápis cravado no peito uns bons 5 centímetros, e pelo aspecto ressequido do sangue já estou assim há um bom par de horas...Olha, provavelmente vou falecer, por isso logo à noite dá tu de comer ao peixe. Abraço…”
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Sonho de uma tarde de verão
Fora uma tarde quente, e eu e Ela gozávamos numa esplanada os últimos raios do Sol que já mordia o poente. Ela é linda. Naquela tarde não tive olhos para mais nada, tirando a rapariga da mesa do lado, a empregada muito decotada, e um estranho objecto voador que deslindei no céu.
“Que é aquilo no céu? É um pássaro? Será Dédalo? Será o Super-Homem?” questionei-me maravilhado. O estranho objecto pareceu aperceber-se do meu fascínio e começou a acercar-se de mim. Continuei: “Tendo em conta a velocidade a que se move e a envergadura dos seus apêndices laterais, decerto será um urubu ou um grifo.” (sim, eu exprimo-me sempre de maneira bastante ridícula).
“Ah não, é apenas um avião. Quem diria, um avião…”.
Sei que aquando da idealização deste blog, prometi nunca referir ou fazer piadas sobre o holocausto, o apartheid, aviões azuis e o Boavista Futebol Clube (apesar de neste ultimo caso ser muito, muito fácil), mas terei de quebrar essa regra só por esta vez. Era um fantástico avião azul, célere como um trovão e ágil como uma lebre. Observei as suas acrobacias durante largos minutos, hipnotizado e boquiaberto como um miúdo na sua primeira ida ao circo.
Meia hora mais tarde o espectáculo terminara e ainda ali me encontrava, babado e com um novo sonho: “quando for grande quero ser o gajo que lava estes aviões depois dos espectáculos!”.
Ganhara um novo sonho, mas perdera-A. Ela, aborrecida com a minha total entrega ao ás dos ares, partira enamorada nos braços da empregada decotada.
“Raios...Ao menos tenho um sonho!”…
“Que é aquilo no céu? É um pássaro? Será Dédalo? Será o Super-Homem?” questionei-me maravilhado. O estranho objecto pareceu aperceber-se do meu fascínio e começou a acercar-se de mim. Continuei: “Tendo em conta a velocidade a que se move e a envergadura dos seus apêndices laterais, decerto será um urubu ou um grifo.” (sim, eu exprimo-me sempre de maneira bastante ridícula).
“Ah não, é apenas um avião. Quem diria, um avião…”.
Sei que aquando da idealização deste blog, prometi nunca referir ou fazer piadas sobre o holocausto, o apartheid, aviões azuis e o Boavista Futebol Clube (apesar de neste ultimo caso ser muito, muito fácil), mas terei de quebrar essa regra só por esta vez. Era um fantástico avião azul, célere como um trovão e ágil como uma lebre. Observei as suas acrobacias durante largos minutos, hipnotizado e boquiaberto como um miúdo na sua primeira ida ao circo.
Meia hora mais tarde o espectáculo terminara e ainda ali me encontrava, babado e com um novo sonho: “quando for grande quero ser o gajo que lava estes aviões depois dos espectáculos!”.
Ganhara um novo sonho, mas perdera-A. Ela, aborrecida com a minha total entrega ao ás dos ares, partira enamorada nos braços da empregada decotada.
“Raios...Ao menos tenho um sonho!”…
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
Death from above
“Lá está ele, todo aperaltado e perfumado. Odeio o sacana!”, pensei.
Sentado o observava e detestava. Detesto-o; a ele e a tudo que representa. Abomino-o desde miúdo, mas com o tempo o meu ódio parece tornar-se cada vez mais fundamentado.
Raramente me exalto, mas a sua presença revela o meu lado mais negro. Irrequieto, procuro disfarçadamente uma faca ou qualquer outro objecto cortante. Nada. Sem duvida que Deus gosta mais dele do que de mim.
“Que cara de carneiro mal morto. Espero que morras, bastardo.”, murmurei.
O sacana fitava-me também, e o ódio incendiava-lhe o olhar igualmente. O jogo de olhares tornara-se numa batalha fervorosa. Agora era matar ou ser morto.
Já de mangas arregaçadas, a face escarlate e empunhando um aguçado lápis, levantei-me de rompante, determinado a desferir-lhe um ataque fatal.
Ao levantar-me, uma forte tontura acordou-me para a realidade. “Raios! Tenho que tirar este espelho do quarto. Isto está a tornar-se doentio…”
Sentado o observava e detestava. Detesto-o; a ele e a tudo que representa. Abomino-o desde miúdo, mas com o tempo o meu ódio parece tornar-se cada vez mais fundamentado.
Raramente me exalto, mas a sua presença revela o meu lado mais negro. Irrequieto, procuro disfarçadamente uma faca ou qualquer outro objecto cortante. Nada. Sem duvida que Deus gosta mais dele do que de mim.
“Que cara de carneiro mal morto. Espero que morras, bastardo.”, murmurei.
O sacana fitava-me também, e o ódio incendiava-lhe o olhar igualmente. O jogo de olhares tornara-se numa batalha fervorosa. Agora era matar ou ser morto.
Já de mangas arregaçadas, a face escarlate e empunhando um aguçado lápis, levantei-me de rompante, determinado a desferir-lhe um ataque fatal.
Ao levantar-me, uma forte tontura acordou-me para a realidade. “Raios! Tenho que tirar este espelho do quarto. Isto está a tornar-se doentio…”
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
Frenético
Exaustivamente entediante. Assim fora o meu dia, e de rastos me encontrava.
Queria dormir, mas não via como. De novo a locomotiva dos sonhos partira e me deixara para trás…
Não tinha dinheiro, logo não podia adormecer como de costume, abraçado ao álcool e coberto por barbitúricos. Ia ter que ser à maneira antiga: deitado numa cama, de olhos fechados e sem espumar pela boca.
O leito estava gelado, e a noite adivinhava-se tormentosa. Tudo me importunava: a mais ténue luz cegava-me, e todos os barulhos me ensurdeciam. Até a minha respiração me incomodava. Juro que estive para parar de respirar, não trouxesse tal acto chatas consequências…
No escuro reparei no canto de umas rolas que se haviam acercado do meu prédio. Quão suspeito me soava tal som...
Foi então que pela primeira vez me congratulei por ser um inveterado cinéfilo. Lembrei-me que nos filmes mais realistas (Força Delta 1 e 2, Senhor dos Anéis, Robocop, entre outros…), todos os vilões, quando escondidos nas sombras, reproduziam na perfeição o canto de rolas, de maneira a indicar aos seus companheiros que chegara o momento de "atacar”.
Tal lembrança fizera-me despertar gelado. “Alguém me vai atacar. Vou ser brutalmente assassinado por bandidos de pala no olho, pernas de pau, e sotaque germânico.” (sim, a minha definição de “assassino” é um pouco romântica). “Têm decerto como objectivo roubar as minhas valiosas bandas desenhadas. Os sacanas…”
Frenético e já com uma faca na mão, pensei: “É desta…vou morrer!”.
Foi então que nova ideia me trespassou: “Ou isso, ou são só rolas…Bem, vou dormir.”
Queria dormir, mas não via como. De novo a locomotiva dos sonhos partira e me deixara para trás…
Não tinha dinheiro, logo não podia adormecer como de costume, abraçado ao álcool e coberto por barbitúricos. Ia ter que ser à maneira antiga: deitado numa cama, de olhos fechados e sem espumar pela boca.
O leito estava gelado, e a noite adivinhava-se tormentosa. Tudo me importunava: a mais ténue luz cegava-me, e todos os barulhos me ensurdeciam. Até a minha respiração me incomodava. Juro que estive para parar de respirar, não trouxesse tal acto chatas consequências…
No escuro reparei no canto de umas rolas que se haviam acercado do meu prédio. Quão suspeito me soava tal som...
Foi então que pela primeira vez me congratulei por ser um inveterado cinéfilo. Lembrei-me que nos filmes mais realistas (Força Delta 1 e 2, Senhor dos Anéis, Robocop, entre outros…), todos os vilões, quando escondidos nas sombras, reproduziam na perfeição o canto de rolas, de maneira a indicar aos seus companheiros que chegara o momento de "atacar”.
Tal lembrança fizera-me despertar gelado. “Alguém me vai atacar. Vou ser brutalmente assassinado por bandidos de pala no olho, pernas de pau, e sotaque germânico.” (sim, a minha definição de “assassino” é um pouco romântica). “Têm decerto como objectivo roubar as minhas valiosas bandas desenhadas. Os sacanas…”
Frenético e já com uma faca na mão, pensei: “É desta…vou morrer!”.
Foi então que nova ideia me trespassou: “Ou isso, ou são só rolas…Bem, vou dormir.”
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
Reunions
O Tempo é sacana. Torna-nos frios e cinzentos, revelou o MacGyver obsoleto e ridículo, e leva-nos a desejar relembrar pessoas e momentos do passado. Assim, Deus criou as “reuniões de velhos colegas e amigos”.
Há dias encontrava-me em frente ao meu guarda-roupa, procurando o que melhor vestir num destes reencontros. Apesar de informal, a ocasião exigia uma certa elegância e bom gosto. No fundo, o verdadeiro propósito destas reuniões é ver como os outros vão afinal, e ninguém se quer revelar como o low-life sem namorada nem emprego, coleccionador de action figures do Dragon Ball, e ainda adepto de anedotas envolvendo as palavras “xixi”,“cocó” e “otorrinolaringologia”. Por fim, entre sedas, veludos e muitas lantejoulas, deslindei a indumentária perfeita.
Com 20 minutos de atraso (não me quis mostrar desesperado!), entrei no restaurante combinado. Estavam todos iguais! O Fábio continuava a preferir a meia branca ás restantes, a Sónia continuava a mais bela, e a Susana continuava sozinha no fundo da sala…
O chapéu de cowboy e as botas com esporas revelaram-se bastante desconfortáveis, logo cedo abanquei junto ao bar. Nisto vi o Marco, antigo playboy e atleta de eleição da turma, agora preso a uma cadeira de rodas e com um farfalhudo bigode.
“Então Marco, como é que isso aconteceu?”, perguntei espantado. O tempo fora nefasto sobre ele.
“Pah, cai do cavalo a jogar pólo.”, respondeu.
“Não meu, referia-me ao bigode. Como é que isso aconteceu pah? Já não estamos nos anos 80, sabias? Diz-me, alguma vez viste o Saddam acompanhado por uma bela mulher? Ah pois! Acho que não preciso dizer mais nada…”
Há dias encontrava-me em frente ao meu guarda-roupa, procurando o que melhor vestir num destes reencontros. Apesar de informal, a ocasião exigia uma certa elegância e bom gosto. No fundo, o verdadeiro propósito destas reuniões é ver como os outros vão afinal, e ninguém se quer revelar como o low-life sem namorada nem emprego, coleccionador de action figures do Dragon Ball, e ainda adepto de anedotas envolvendo as palavras “xixi”,“cocó” e “otorrinolaringologia”. Por fim, entre sedas, veludos e muitas lantejoulas, deslindei a indumentária perfeita.
Com 20 minutos de atraso (não me quis mostrar desesperado!), entrei no restaurante combinado. Estavam todos iguais! O Fábio continuava a preferir a meia branca ás restantes, a Sónia continuava a mais bela, e a Susana continuava sozinha no fundo da sala…
O chapéu de cowboy e as botas com esporas revelaram-se bastante desconfortáveis, logo cedo abanquei junto ao bar. Nisto vi o Marco, antigo playboy e atleta de eleição da turma, agora preso a uma cadeira de rodas e com um farfalhudo bigode.
“Então Marco, como é que isso aconteceu?”, perguntei espantado. O tempo fora nefasto sobre ele.
“Pah, cai do cavalo a jogar pólo.”, respondeu.
“Não meu, referia-me ao bigode. Como é que isso aconteceu pah? Já não estamos nos anos 80, sabias? Diz-me, alguma vez viste o Saddam acompanhado por uma bela mulher? Ah pois! Acho que não preciso dizer mais nada…”
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
O outro
- Acredita, nunca mais vou com ele a lado algum. Não é que eu goste de ser o centro das atenções, mas quando estou com ele parece que me torno invisível…Ninguém dá por mim.
- Também não é preciso reagires dessa maneira. Sabes que ele sempre foi assim. Algo excêntrico, colorido, cheio de vida…Dá-lhe um desconto.
- Mas a sério, irrita-me. O pessoal adora-o! Devias ver a quantidade de números de raparigas que ele saca quando vamos sair. E as crianças? Sempre que o vêem fazem uma festa e não o largam…
- Mas Guilherme, ele não o faz por mal. Nasceu assim. Acho um pouco injusto e estúpido uma amizade como a vossa terminar só porque toda a gente o adora.
- Mas não percebes que enquanto eu não me vir livre dele vou ser sempre “o outro”! Se estiver com ele, posso gritar “tenho fantasias sexuais com a minha avó!” em plena baixa que ninguém olha para mim. Acredita, nunca mais ando com o Poupas na rua. Acabou…
- Também não é preciso reagires dessa maneira. Sabes que ele sempre foi assim. Algo excêntrico, colorido, cheio de vida…Dá-lhe um desconto.
- Mas a sério, irrita-me. O pessoal adora-o! Devias ver a quantidade de números de raparigas que ele saca quando vamos sair. E as crianças? Sempre que o vêem fazem uma festa e não o largam…
- Mas Guilherme, ele não o faz por mal. Nasceu assim. Acho um pouco injusto e estúpido uma amizade como a vossa terminar só porque toda a gente o adora.
- Mas não percebes que enquanto eu não me vir livre dele vou ser sempre “o outro”! Se estiver com ele, posso gritar “tenho fantasias sexuais com a minha avó!” em plena baixa que ninguém olha para mim. Acredita, nunca mais ando com o Poupas na rua. Acabou…
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Amor, Parte2: Desenganos
A lua ia alto, e o calor convidava a um mergulho. Ali, sozinho junto ao mar, mergulhei num Martini…
Saída da bruma, mui galharda donzela de mim se acercou. O negro profundo do seu olhar deixava adivinhar uma qualquer exótica naturalidade, e o vermelho do seu vestido dava-lhe um ar de deusa hindu.
Canela, jasmim, lilás, e outras tantas fragrâncias lhe deslindei no aroma. Sei que corro o risco de plagiador ser intitulado, mas não resisto a afirmar: ela cheirava ao que os anjos decerto cheirarão.
Hipnotizado, com grande deleite acompanhei todos os seus passos na minha direcção. Encarnada, toda ela era fogo; a seu lado, todas as outras eram meras estátuas do mais gélido mármore.
Agrilhoado pela sua desarmante beleza, imobilizado a esperei, e enfim os seus imaculados lábios se descerraram: “Tens lume?”
Ela falou-me…
“Não tenho, desculpa. Sabes, não devias fumar. Fumar mata. A probabilidade de um fumador contrair cancro pulmonar é dez vezes superior à de um não-fumador. Sabias também que a pobreza e o tabagismo estão estritamente ligados? Em vez de desperdiçado em tabaco, todo esse dinheiro podia ser investido em bens essenciais, bens de produção…Também o analfabetismo e iliteracia estão estritamente…”
Estupefacta e algo temerosa, virou-me as costas.
“O quê que eu fiz?!?”…
Saída da bruma, mui galharda donzela de mim se acercou. O negro profundo do seu olhar deixava adivinhar uma qualquer exótica naturalidade, e o vermelho do seu vestido dava-lhe um ar de deusa hindu.
Canela, jasmim, lilás, e outras tantas fragrâncias lhe deslindei no aroma. Sei que corro o risco de plagiador ser intitulado, mas não resisto a afirmar: ela cheirava ao que os anjos decerto cheirarão.
Hipnotizado, com grande deleite acompanhei todos os seus passos na minha direcção. Encarnada, toda ela era fogo; a seu lado, todas as outras eram meras estátuas do mais gélido mármore.
Agrilhoado pela sua desarmante beleza, imobilizado a esperei, e enfim os seus imaculados lábios se descerraram: “Tens lume?”
Ela falou-me…
“Não tenho, desculpa. Sabes, não devias fumar. Fumar mata. A probabilidade de um fumador contrair cancro pulmonar é dez vezes superior à de um não-fumador. Sabias também que a pobreza e o tabagismo estão estritamente ligados? Em vez de desperdiçado em tabaco, todo esse dinheiro podia ser investido em bens essenciais, bens de produção…Também o analfabetismo e iliteracia estão estritamente…”
Estupefacta e algo temerosa, virou-me as costas.
“O quê que eu fiz?!?”…
domingo, 5 de agosto de 2007
O Medo
Palhaços, fundamentalistas, ciganos, soldados nazis, ou palhaços fundamentalistas de raça cigana que são soldados nazis nos tempos livres; nenhum destes me causa mais temor que seres extraterrestres.
Desde os tempos de gaiato que temo seres alienígenas, as suas gigantescas naves, e as suas garridas e cintilantes vestes que parecem saídas de um qualquer show no Moulin Rouge.
Sempre temi de noite ser raptado do meu quente leito, e ser transportado para uma gelada nave onde não teria piões ou berlindes para brincar, tendo de me contentar com entediantes aparelhos de teletransporte, e canhões de raios Gamma.
Mas o que sempre me causou mais temor foram os inevitáveis exames a que seria sujeito. Aquando da introdução da perfurante sonda na minha coluna vertical, os esguios e gélidos dedos daqueles sacaninhas decerto me deixariam arrepiado, e só Deus sabe como detesto ficar arrepiado.
É que abomino mesmo...
Desde os tempos de gaiato que temo seres alienígenas, as suas gigantescas naves, e as suas garridas e cintilantes vestes que parecem saídas de um qualquer show no Moulin Rouge.
Sempre temi de noite ser raptado do meu quente leito, e ser transportado para uma gelada nave onde não teria piões ou berlindes para brincar, tendo de me contentar com entediantes aparelhos de teletransporte, e canhões de raios Gamma.
Mas o que sempre me causou mais temor foram os inevitáveis exames a que seria sujeito. Aquando da introdução da perfurante sonda na minha coluna vertical, os esguios e gélidos dedos daqueles sacaninhas decerto me deixariam arrepiado, e só Deus sabe como detesto ficar arrepiado.
É que abomino mesmo...
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
Dias do fim
Agora que importunei a Igreja Católica, sinto o meu derradeiro dia cada vez mais próximo. Sei o perigo eminente.
De noite adormeço com o revólver debaixo da almofada, e na rua uso sempre duas t-shirts, não vá alguém disparar contra mim.
Os e-mails hostis acumulam-se, e muitas vezes já nem os leio. É cansativo, desencorajador e temeroso! Mais do que nunca, como te percebo agora Paulo Portas.
Sentindo aproximar-se o toque frio da morte, decidi “organizar a minha vida” (expressão que na gíria dos moribundos significa “reatar relações destruídas pelo tempo, pedir desculpa a quem o merece, e agredir violentamente todos aqueles que nos importunaram toda a vida”), e realizar o meu grande desejo de infância: fazer uma viagem ao meu destino de sonho.
Escritas as minhas memórias e preparada a bagagem, despedir-me-ei dos meus, da minha casa e da minha terra, e partirei na minha derradeira viagem, decidido a não voltar.
Algés, aqui vou eu!
De noite adormeço com o revólver debaixo da almofada, e na rua uso sempre duas t-shirts, não vá alguém disparar contra mim.
Os e-mails hostis acumulam-se, e muitas vezes já nem os leio. É cansativo, desencorajador e temeroso! Mais do que nunca, como te percebo agora Paulo Portas.
Sentindo aproximar-se o toque frio da morte, decidi “organizar a minha vida” (expressão que na gíria dos moribundos significa “reatar relações destruídas pelo tempo, pedir desculpa a quem o merece, e agredir violentamente todos aqueles que nos importunaram toda a vida”), e realizar o meu grande desejo de infância: fazer uma viagem ao meu destino de sonho.
Escritas as minhas memórias e preparada a bagagem, despedir-me-ei dos meus, da minha casa e da minha terra, e partirei na minha derradeira viagem, decidido a não voltar.
Algés, aqui vou eu!
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