Uma voz penetrante rasga a noite e arrasta-me do comboio dos sonhos de novo para terra.
Mas será que arrasta mesmo?
Mãe?.
Não, não é a tua mãe. Sou o Tom Cruise no papel de Maverick, do Top Gun de 1986, e isto não passa de um sonho bizarro. Estou aqui para te responder a três questões à tua escolha, e à tua escolha apenas. Pensa bem nas questões que pões, pois duvido que voltes a experimentar os cogumelos que o teu primo apanha na serra, por isso decerto cá mais não voltarei.
Mas isto é a sério, ou como de costume vou acordar sem um rim?
Não, eu sou verdadeiro. Sou todas as pantominices de plástico que assolam a tua mente. Sim, sou o teu Jesus de plástico!
Uhm?!?
Nada nada… E então, qual a tua primeira questão?
È verdade que se tiver a mão maior que a cara estou infectado com o HIV/SIDA?
Sim, de facto é. Mas a sério que me puseste essa questão quando te bastava ter lido um ou dois livros da especialidade?!?...
Vá, a segunda, qual é?
É verdade que no final de todo o arco-iris se encontra um caldeirão recheado de ouro?
Não, isso não passa de uma mentira que vem sendo fomentada por ciganos desde há séculos para cá. Na verdade, é habitual encontrares acampamentos ciganos no final dos arco-iris. Quando um aventureiro parte em busca do ouro que espera lá encontrar, normalmente acaba assaltado e privado dos seus bens.
Ah bom, ainda bem que me avisaste. É que ás vezes eu vou com o meu tio e…
Isso não me interessa. Pareço teu amigo? Vá, faz lá a ultima pergunta que o dever chama-me para os lados do Piolho.
Ah, ta bom. Quando uma rapariga me convida para uma ménage à trois, mas venho a descobrir que essa ménage à trois é comigo, ela e um amigo meu, é censurável eu declinar o convite, convencer o meu amigo a fazer o mesmo, abandonarmos juntos o apartamento dela, apenas para mais tarde eu voltar sozinho para praticar o amor com ela?
Man, tu eras capaz de fazer isso? Isso não é nada cool!…É bastante horrível, de facto!
Eu não disse que ia fazer isso, só queria saber se era assim tão mau.
Bem, acho melhor ir-me.
Oh, por favor não partas. Gosto tanto do teu blusão. Onde o adquiriste?
Adios conejo maldito!
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Público
A pedido de parte do público mais assíduo deste blog, publico de seguida a já pública, mas até hoje ainda recôndita, “conversa” entre este vosso estimado autor e uma já ilustre anónima, aquando de um post anterior.
Anónimo disse:
bem essa de fazer amor com uma amiga... o autor deste blog fala por experiência própria?!
Guilherme Silva disse:
Sim, desde cedo se notou que este blog era de índole autobiográfica. Eu tive mesmo um irmão gémeo aos 3 anos de idade, também tenho uma ex-namorada aprisionada no guarda-roupa, e é verdade também que já me roubaram 3 rins e que me falta um dedo...
Só mesmo a um leitor menos atento é que a índole autobiográfica deste blog escaparia.
Anónimo disse:
caro autor do blog,a leitora "menos atenta" desconhecia que este blog era de índole autobiográfica. o seu esclarecimento tornou-me uma pessoa mais esclarecida. o meu obrigado! é sentido, acredite!
no entanto, a leitora "menos atenta" ficou "assombrada" com uma duvida: porque razão tem o autor do blog uma ex-namorada aprisionada no guarda-roupa?????será um amor mal resolvido???estará ela ainda viva???será uma substituta para as bolas de naftalina?!
não creio que o autor do blog já nos tenha falado da ex-namorada em algum post anterior...
Guilherme Silva disse:
Mui cara leitora “ainda menos atenta do que de início esperava”, sim, é obvio que tenho uma ex-namorada, ainda viva, aprisionada no meu guarda-roupa.
Alias, a maior parte dos meus amigos faz o mesmo. È por isso que para nós a piada do “ainda não saiu do armário” tem um sentido ainda mais especial...
Anónimo disse:
Caro autor do blog,
A leitora “ainda menos atenta do que de inicio esperava" conclui, do seu comentário anterior, que o autor deste blog é, de facto, uma "pessoa equilibrada".ainda assim parece me que o autor do blog se esquiva de explicar aos seus fieis leitores o porquê de manter aprisionada a ex-namorada.
Gosta de guardar as boas recordações?!? será ela a namorada do jardim de infância, a primeira e a ultima?
ainda assim, a leitora “ainda menos atenta do que de inicio esperava" ficou assustada... corro risco de me apaixonar por si ou por um dos seus amigos?!? ...não gostaria de viver aprisionada num guarda-roupa.imagino que seja desconfortável...digo eu!
Guilherme Silva disse:
Cara leitora “ainda menos atenta do que de inicio esperava”Sim, sou equilibrado. Faço uma boa dieta à base de omega3 e bífidos activo, e quando faço omoletes junto muito leite aos ovos para não ficar com figadeira.
Quanto ao risco que corre ou não de por mim se apaixonar, não sei mesmo como lhe responder e elucidar. Como posso faze-lo se tão pouco sei quem é?Vá, identifique-se safada.
Quanto ao meu guarda-roupa, ele é bem confortável e quentinho. E de vez em quando até lhe levo um Toblerone. É gostoso...
Anónimo disse:
decididamente estou "apaixonada" por si...tinha um sonho, um pouco...como direi...intimo, de que me chamassem safada! acredite...já me chamaram de muita coisa...com "safada" com seguiu superar todos os outros! é maroto o autor do blog... ;)
quanto ao tobleron...humm tentador! embora preferisse uma caixa de ferrero rocher...mas vejo que sabe como mimar uma mulher :P
a actual namorada não sente ciumes?!? ou está habituada a "partilhar"?!mas é como lhe digo... sinto-me tentada a viver num guarda-roupa... terá espaço para mais uma na sua vida?! perdão...no seu guarda-roupa?!?
Guilherme Silva disse:
Antes de mais obrigado, pois folgo em saber que “com segui” superar todos os outros!Não posso deixar de reparar também que optou por utilizar um velho truque do cinema para descobrir o meu estado civil. Penosamente terei que me escusar a responder, pois tanto quanto sei a cara anónima pode não passar de um calceteiro de 56 anos, habitante de Serrazes, Ponte de Lima.
Identifique-se por favor. E sim, o meu guarda-roupa ainda tem imenso espaço a ocupar, pois graças a Deus tive o prazer de namorar com mulheres de esbeltas e esguias formas.
Por fim, a todos lanço um repto: quem me oferecer informações, comprováveis e fidedignas, sobre a identidade desta anónima personagem, será recompensado com 10 rebuçados “floco de neve” e um xi-coração apertado.
A conversa, para minha confessa desilusão, ficou por aqui.
Assim, mais uma vez, volto a sugerir: identifique-se menina. Mal não lhe fará!
Vá, se acabar por se identificar até pode ser que lhe dê autorização para tatuar o meu nome na sua coxa.
Anónimo disse:
bem essa de fazer amor com uma amiga... o autor deste blog fala por experiência própria?!
Guilherme Silva disse:
Sim, desde cedo se notou que este blog era de índole autobiográfica. Eu tive mesmo um irmão gémeo aos 3 anos de idade, também tenho uma ex-namorada aprisionada no guarda-roupa, e é verdade também que já me roubaram 3 rins e que me falta um dedo...
Só mesmo a um leitor menos atento é que a índole autobiográfica deste blog escaparia.
Anónimo disse:
caro autor do blog,a leitora "menos atenta" desconhecia que este blog era de índole autobiográfica. o seu esclarecimento tornou-me uma pessoa mais esclarecida. o meu obrigado! é sentido, acredite!
no entanto, a leitora "menos atenta" ficou "assombrada" com uma duvida: porque razão tem o autor do blog uma ex-namorada aprisionada no guarda-roupa?????será um amor mal resolvido???estará ela ainda viva???será uma substituta para as bolas de naftalina?!
não creio que o autor do blog já nos tenha falado da ex-namorada em algum post anterior...
Guilherme Silva disse:
Mui cara leitora “ainda menos atenta do que de início esperava”, sim, é obvio que tenho uma ex-namorada, ainda viva, aprisionada no meu guarda-roupa.
Alias, a maior parte dos meus amigos faz o mesmo. È por isso que para nós a piada do “ainda não saiu do armário” tem um sentido ainda mais especial...
Anónimo disse:
Caro autor do blog,
A leitora “ainda menos atenta do que de inicio esperava" conclui, do seu comentário anterior, que o autor deste blog é, de facto, uma "pessoa equilibrada".ainda assim parece me que o autor do blog se esquiva de explicar aos seus fieis leitores o porquê de manter aprisionada a ex-namorada.
Gosta de guardar as boas recordações?!? será ela a namorada do jardim de infância, a primeira e a ultima?
ainda assim, a leitora “ainda menos atenta do que de inicio esperava" ficou assustada... corro risco de me apaixonar por si ou por um dos seus amigos?!? ...não gostaria de viver aprisionada num guarda-roupa.imagino que seja desconfortável...digo eu!
Guilherme Silva disse:
Cara leitora “ainda menos atenta do que de inicio esperava”Sim, sou equilibrado. Faço uma boa dieta à base de omega3 e bífidos activo, e quando faço omoletes junto muito leite aos ovos para não ficar com figadeira.
Quanto ao risco que corre ou não de por mim se apaixonar, não sei mesmo como lhe responder e elucidar. Como posso faze-lo se tão pouco sei quem é?Vá, identifique-se safada.
Quanto ao meu guarda-roupa, ele é bem confortável e quentinho. E de vez em quando até lhe levo um Toblerone. É gostoso...
Anónimo disse:
decididamente estou "apaixonada" por si...tinha um sonho, um pouco...como direi...intimo, de que me chamassem safada! acredite...já me chamaram de muita coisa...com "safada" com seguiu superar todos os outros! é maroto o autor do blog... ;)
quanto ao tobleron...humm tentador! embora preferisse uma caixa de ferrero rocher...mas vejo que sabe como mimar uma mulher :P
a actual namorada não sente ciumes?!? ou está habituada a "partilhar"?!mas é como lhe digo... sinto-me tentada a viver num guarda-roupa... terá espaço para mais uma na sua vida?! perdão...no seu guarda-roupa?!?
Guilherme Silva disse:
Antes de mais obrigado, pois folgo em saber que “com segui” superar todos os outros!Não posso deixar de reparar também que optou por utilizar um velho truque do cinema para descobrir o meu estado civil. Penosamente terei que me escusar a responder, pois tanto quanto sei a cara anónima pode não passar de um calceteiro de 56 anos, habitante de Serrazes, Ponte de Lima.
Identifique-se por favor. E sim, o meu guarda-roupa ainda tem imenso espaço a ocupar, pois graças a Deus tive o prazer de namorar com mulheres de esbeltas e esguias formas.
Por fim, a todos lanço um repto: quem me oferecer informações, comprováveis e fidedignas, sobre a identidade desta anónima personagem, será recompensado com 10 rebuçados “floco de neve” e um xi-coração apertado.
A conversa, para minha confessa desilusão, ficou por aqui.
Assim, mais uma vez, volto a sugerir: identifique-se menina. Mal não lhe fará!
Vá, se acabar por se identificar até pode ser que lhe dê autorização para tatuar o meu nome na sua coxa.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Cor de rosa
È dia de São Valentim, e aqui, ali e acolá vejo declarações de afecto, amor, paixão, luxúria e travessura. Umas tomam bacocas formas, outras são algo brejeiras, outras há mais convencionais, e ainda reparo noutras mais comedidas. Há até quem se deixe levar pelo galicismo do dia, e apregoe um tímido “Je t’aime”. Outros, mais intelectuais, até pedem a diária meia de leite com um prévio “Garçon, por favor…”.
Aqui, ali e acolá vejo florais declarações de afecto, amor, paixão, luxúria e travessura. Grande parte das vezes vejo-as encarnar no frágil corpo de uma rosa, outras num singelo par delas.
Ora, intriga-me o facto de entre tantas e tantas rosas, não deslindar uma única rosa cor-de-rosa. Nem uma! Uns optam pela célebre e apaixonada rosa vermelha - acabadinha de sair de um qualquer videoclip do Prince - ,outros pela intrigante rosa albina. Mas nem uma única rosa cor-de-rosa!
Mas afinal, cor-de-rosa não deveria ser a cor das rosas? Se sim, porque não reparo numa única? Se não, a quem se deve tão enganosa pantominice? Já agora, porque é o céu azul? (no meio de tantas coloridas questões senti-me no direito de lançar uma outra.)
De qualquer maneira já me decidi.
Hoje vou oferecer rosas cor-de-rosa à mulher que calhar de amar.
…e logo de seguida os 25€ previamente acertados.
Aqui, ali e acolá vejo florais declarações de afecto, amor, paixão, luxúria e travessura. Grande parte das vezes vejo-as encarnar no frágil corpo de uma rosa, outras num singelo par delas.
Ora, intriga-me o facto de entre tantas e tantas rosas, não deslindar uma única rosa cor-de-rosa. Nem uma! Uns optam pela célebre e apaixonada rosa vermelha - acabadinha de sair de um qualquer videoclip do Prince - ,outros pela intrigante rosa albina. Mas nem uma única rosa cor-de-rosa!
Mas afinal, cor-de-rosa não deveria ser a cor das rosas? Se sim, porque não reparo numa única? Se não, a quem se deve tão enganosa pantominice? Já agora, porque é o céu azul? (no meio de tantas coloridas questões senti-me no direito de lançar uma outra.)
De qualquer maneira já me decidi.
Hoje vou oferecer rosas cor-de-rosa à mulher que calhar de amar.
…e logo de seguida os 25€ previamente acertados.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Touché 2
Fazer amor com uma amiga é arriscado.
É começar um jogo que não sabemos bem se queremos acabar.
Como aquele Mortal Kombat, em que depois de derrotarmos o chefe do fim aparece uma foto da nossa avó nua.
É começar um jogo que não sabemos bem se queremos acabar.
Como aquele Mortal Kombat, em que depois de derrotarmos o chefe do fim aparece uma foto da nossa avó nua.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Awful tasting medicine
Não passava de um gaiato quando aprendi que nesta vida há dois tipos de pessoas: aquelas que têm uma vida, e aquelas que numa tarde de quarta-feira assistem ao debate quinzenal na Assembleia da Republica.
Bem, em verdade falando, não passava de um gaiato quando aprendi que nesta vida há vários outros tipos de pessoas, e vários outros factores a ter em conta quando a julgá-las. Temos os homens e as mulheres (apesar de não ser assim tão linear, visto ainda ser necessário enquadrar nesta solução os hermafroditas e os leirienses); temos os comunistas e as pessoas que não fazem questão de comer criancinhas; temos os apoiantes do partido popular e todos aqueles a quem um pólo Lacoste não é de todo indispensável; temos as pessoas com bom-senso e as pessoas que dão nomes de fruta a blogues…
Mas voltando à temática inicial, há pessoas que têm uma vida, e há aquelas que numa tarde de quarta-feira assistem ao debate quinzenal na Assembleia da Republica. Ao que parece, eu não tenho vida às quartas-feiras à tarde.
Assim, no rescaldo de uma noite de festa, ainda de camisa e a estranhar bastante o facto de ter dois números de telemóvel desenhados na mão direita (mais tarde vim a descobrir serem de um padre que me achara bem-parecido, e da casa de penhores onde deixara o meu orgulho), sentei-me em frente ao televisor, e esperei até que os meus olhos voltassem a ver a cores.
15 minutos depois e já a cores, assistia a um estranho espectáculo de luz e cor, que passados outros 30 minutos vim a perceber não se tratar de mais um episódio da BBC Vida Selvagem. Tratava-se afinal do último debate quinzenal deste ano com a presença do Primeiro-Ministro na Assembleia da Republica. Decidi-me a ver.
Das infindáveis horas que o espectáculo durou, nada de monta a apontar, até porque o meu televisor não tem som, e ainda não domino a arte de ler lábios e trejeitos faciais.
Até que a certa altura o meu vizinho (que, ao que parece, não tem vida também) ligou o televisor na mesma estação e em bom som, pelo que finalmente consegui acompanhar o debate em condições.
Dois minutos bastaram para que ouvisse o que mais tarde vim a descobrir ter-me feito ganhar o dia. Efusivamente, Jerónimo Sousa, secretário-geral do PCP, afirmava, e cito “(…) os portugueses têm que comprar mais pão senhor Primeiro-ministro, porque estão a cortar na carne, no peixe, nos medicamentos (…)”.
Ali, no sofá, agora mesmerizado pelo brilhantismo do plenário, meditei sobre as palavras do secretário-geral do PCP, e acabei recordando-me das histórias que a minha avó sempre me contou do seu tempo. Tempo esse em que as pessoas colmatavam a falta de medicamentos com o pão, curando vis enfermidades com regueifas e broa de Avintes. Como o meu tio-avô Jordão, que através da ingestão diária de moletes viu a sua perna em tempos amputada, reaparecer miraculosamente…
Bem, em verdade falando, não passava de um gaiato quando aprendi que nesta vida há vários outros tipos de pessoas, e vários outros factores a ter em conta quando a julgá-las. Temos os homens e as mulheres (apesar de não ser assim tão linear, visto ainda ser necessário enquadrar nesta solução os hermafroditas e os leirienses); temos os comunistas e as pessoas que não fazem questão de comer criancinhas; temos os apoiantes do partido popular e todos aqueles a quem um pólo Lacoste não é de todo indispensável; temos as pessoas com bom-senso e as pessoas que dão nomes de fruta a blogues…
Mas voltando à temática inicial, há pessoas que têm uma vida, e há aquelas que numa tarde de quarta-feira assistem ao debate quinzenal na Assembleia da Republica. Ao que parece, eu não tenho vida às quartas-feiras à tarde.
Assim, no rescaldo de uma noite de festa, ainda de camisa e a estranhar bastante o facto de ter dois números de telemóvel desenhados na mão direita (mais tarde vim a descobrir serem de um padre que me achara bem-parecido, e da casa de penhores onde deixara o meu orgulho), sentei-me em frente ao televisor, e esperei até que os meus olhos voltassem a ver a cores.
15 minutos depois e já a cores, assistia a um estranho espectáculo de luz e cor, que passados outros 30 minutos vim a perceber não se tratar de mais um episódio da BBC Vida Selvagem. Tratava-se afinal do último debate quinzenal deste ano com a presença do Primeiro-Ministro na Assembleia da Republica. Decidi-me a ver.
Das infindáveis horas que o espectáculo durou, nada de monta a apontar, até porque o meu televisor não tem som, e ainda não domino a arte de ler lábios e trejeitos faciais.
Até que a certa altura o meu vizinho (que, ao que parece, não tem vida também) ligou o televisor na mesma estação e em bom som, pelo que finalmente consegui acompanhar o debate em condições.
Dois minutos bastaram para que ouvisse o que mais tarde vim a descobrir ter-me feito ganhar o dia. Efusivamente, Jerónimo Sousa, secretário-geral do PCP, afirmava, e cito “(…) os portugueses têm que comprar mais pão senhor Primeiro-ministro, porque estão a cortar na carne, no peixe, nos medicamentos (…)”.
Ali, no sofá, agora mesmerizado pelo brilhantismo do plenário, meditei sobre as palavras do secretário-geral do PCP, e acabei recordando-me das histórias que a minha avó sempre me contou do seu tempo. Tempo esse em que as pessoas colmatavam a falta de medicamentos com o pão, curando vis enfermidades com regueifas e broa de Avintes. Como o meu tio-avô Jordão, que através da ingestão diária de moletes viu a sua perna em tempos amputada, reaparecer miraculosamente…
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Touché
Amigo meu disse-me que tinha como herói o Robin, colega de aventuras do Batman.
Matei-o com uma pá...
Matei-o com uma pá...
domingo, 30 de novembro de 2008
All fucking ninjas should be fucking hanged!
“All fucking ninjas should be fucking hanged!”, disse-me, certo dia, um velho mendigo no metro de Londres, notoriamente tocado pela febre da uva. Censurei-o, não pude deixar de o fazer. Afinal, os ninjas são há séculos o motor da economia mundial, sempre proliferando a produção de fatais estrelinhas de metal, de justinhas vestimentas de nylon preto, e de mesmerizantes livrinhos de colorir, com que enganam os tempos mortos. Afinal, são eles quem ainda mantém abertas as inúmeras fábricas de têxteis a norte do rio Ave, empregando assim milhares de crianças, que de outra forma seriam entregues a um árduo labor em frente a um Magalhães.
Como tinha sido bem forte o abraço que Baco lhe dera, decidi perdoar-lhe tal blasfémia, escusando-me assim a agredi-lo violentamente. Paguei, no entanto, a dois paquistaneses para que o fizessem por mim (ah, bom velho humor racista).
De volta a Portugal, decidi revisitar a história dos ninjas neste pais à beira-mar plantado. Desde a idade média até aos dias que correm, os ninjas sempre estiveram presentes nos grandes momentos da história de Portugal. Foram eles quem nos garantiu a vitória em Aljubarrota, e não a Graça Divina do Santo Condestável, e foi também um membro desta organização quase-secreta quem serrou uma das pernas da cadeira que vitimou Salazar. Veio a público nos últimos dias, que o plantel boavisteiro que venceu o Campeonato Nacional na época 2000/2001 era em grande parte constituído por velhos anciões da arte ninjitsu, e que Martelinho era inclusivamente o secretário-geral desta organização em Portugal. Por fim, o desaparecimento de António Sala dos ecrãs nacionais, é lembrado nos dias que correm como o maior feito dos ninjas em toda a Europa Ocidental.
Em êxtase com tão grandiosa história de façanhas e aventuras, enviei o meu curriculum para a sede dos ninjas na Europa, em Massamá, crente que um dia poderia vir a ser membro desta organização. Infelizmente, foi-me negada a candidatura por ter mais que 1,60mts, e não possuir licença de condução tipo D e D1.
A vida é tramada; terei de me contentar com o PCP. Não é tão agradável, mas ao menos poderei comer criancinhas ao pequeno-almoço (ah, bom velho preconceito politico).
Como tinha sido bem forte o abraço que Baco lhe dera, decidi perdoar-lhe tal blasfémia, escusando-me assim a agredi-lo violentamente. Paguei, no entanto, a dois paquistaneses para que o fizessem por mim (ah, bom velho humor racista).
De volta a Portugal, decidi revisitar a história dos ninjas neste pais à beira-mar plantado. Desde a idade média até aos dias que correm, os ninjas sempre estiveram presentes nos grandes momentos da história de Portugal. Foram eles quem nos garantiu a vitória em Aljubarrota, e não a Graça Divina do Santo Condestável, e foi também um membro desta organização quase-secreta quem serrou uma das pernas da cadeira que vitimou Salazar. Veio a público nos últimos dias, que o plantel boavisteiro que venceu o Campeonato Nacional na época 2000/2001 era em grande parte constituído por velhos anciões da arte ninjitsu, e que Martelinho era inclusivamente o secretário-geral desta organização em Portugal. Por fim, o desaparecimento de António Sala dos ecrãs nacionais, é lembrado nos dias que correm como o maior feito dos ninjas em toda a Europa Ocidental.
Em êxtase com tão grandiosa história de façanhas e aventuras, enviei o meu curriculum para a sede dos ninjas na Europa, em Massamá, crente que um dia poderia vir a ser membro desta organização. Infelizmente, foi-me negada a candidatura por ter mais que 1,60mts, e não possuir licença de condução tipo D e D1.
A vida é tramada; terei de me contentar com o PCP. Não é tão agradável, mas ao menos poderei comer criancinhas ao pequeno-almoço (ah, bom velho preconceito politico).
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Intermission
É de manhã e o Sol raia ainda tímido.
Pouco depois de ler no Sol as nove horas (sim, porque como sabem fui criado por uma loba na Serra do Montezinho, e sou mais ou menos um erudito nas coisas da Terra) ouço alguém martelar em minha casa.
“A minha mãe finalmente contratou alguém para esculpir um busto meu. Vai ficar lindamente no hall de entrada.”, julguei. Levantei-me de rompante, e após sacudir a farta cabeleira para trás da orelha mais próxima, saio do quarto e dirijo-me para o frenesim. “Uma contemplação ao vivo desta figura de Adónis facilitará tão árdua tarefa.” pensava agora.
Avanço e deparo-me com uma espessa nuvem de pó com a qual não estava à espera. “Algo porosa a fina mármore por que optou o requintado artesão.” concluí.
Com sabeis, caro leitor, a minha vida foi já cenário de árduos labores, ruins vicissitudes, e alvo das mais vis pantominices, mas nunca como desta vez me senti tão insultado no âmago do meu burguês coração. Qual não é meu espanto quando me deparo com um cenário digno do mais dantesco inferno, ali, ali no meu quarto de banho.
A sanita deitada a um canto, os meus patinhos de borracha amarrotados entre uma mala de ferramentas e a parede, e um homem suado e de farto bigode cantarolando o que julgo ser Tony Carreira, ou talvez Génesis, na sua fase após a saída de Peter Gabriel.
Agora também com suores frios, fraquejei e esforcei-me por imaginar borboletas e lindos unicórnios que me trouxessem de novo as forças que necessitava.
“Vamos lá Manel, tu consegues superar isto. Afinal já passaste por pior: já viste as costas peludas da prima Cláudia…”, meditava agora.
Após breves segundos estava já restabelecido e deparava-me agora com os pequenos olhos castanhos deste homem dos duros labores mirando os meus, profundos e azuis.
“Bom dia. O paizinho não tem aí uma cervejola que o menino me possa dar? Tanta poeira está a deixar-me com a esgana.”, perguntou-me.
“O que te vou dar é uma valente bastonada no meio da face, vil criatura!”, pensei eu.
“Sim senhor, caro senhor. É para já meu amo.”, disse eu.
Pouco depois de ler no Sol as nove horas (sim, porque como sabem fui criado por uma loba na Serra do Montezinho, e sou mais ou menos um erudito nas coisas da Terra) ouço alguém martelar em minha casa.
“A minha mãe finalmente contratou alguém para esculpir um busto meu. Vai ficar lindamente no hall de entrada.”, julguei. Levantei-me de rompante, e após sacudir a farta cabeleira para trás da orelha mais próxima, saio do quarto e dirijo-me para o frenesim. “Uma contemplação ao vivo desta figura de Adónis facilitará tão árdua tarefa.” pensava agora.
Avanço e deparo-me com uma espessa nuvem de pó com a qual não estava à espera. “Algo porosa a fina mármore por que optou o requintado artesão.” concluí.
Com sabeis, caro leitor, a minha vida foi já cenário de árduos labores, ruins vicissitudes, e alvo das mais vis pantominices, mas nunca como desta vez me senti tão insultado no âmago do meu burguês coração. Qual não é meu espanto quando me deparo com um cenário digno do mais dantesco inferno, ali, ali no meu quarto de banho.
A sanita deitada a um canto, os meus patinhos de borracha amarrotados entre uma mala de ferramentas e a parede, e um homem suado e de farto bigode cantarolando o que julgo ser Tony Carreira, ou talvez Génesis, na sua fase após a saída de Peter Gabriel.
Agora também com suores frios, fraquejei e esforcei-me por imaginar borboletas e lindos unicórnios que me trouxessem de novo as forças que necessitava.
“Vamos lá Manel, tu consegues superar isto. Afinal já passaste por pior: já viste as costas peludas da prima Cláudia…”, meditava agora.
Após breves segundos estava já restabelecido e deparava-me agora com os pequenos olhos castanhos deste homem dos duros labores mirando os meus, profundos e azuis.
“Bom dia. O paizinho não tem aí uma cervejola que o menino me possa dar? Tanta poeira está a deixar-me com a esgana.”, perguntou-me.
“O que te vou dar é uma valente bastonada no meio da face, vil criatura!”, pensei eu.
“Sim senhor, caro senhor. É para já meu amo.”, disse eu.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Le Coq Sportif
Fazer desporto é bom.
É saudável, divertido por regra, e apenas raras vezes acaba em noites de febre e vómito ensanguentado (é normal não é, ou serei eu que estou cronicamente doente?).
Nascido e criado em Aldoar, desde menino que pratico desporto, por lazer ou necessidade. Nesta terra de gente rude e avessa à lei, cedo às crianças são inculcados os princípios básicos do atletismo, desta feita dissimulados em regras de sobrevivência. “Que deves fazer se vires um cigano na rua?”, perguntam-nos pouco após abandonarmos o berço. “Deves correr desalmadamente e trepar a árvore mais próxima.”, exemplificam-nos prontamente.
Continuam: “Se vires um preto deves largar a carteira, correr, saltar muros, e assim que longe deves rezar aquela oração que te ensinaram na catequese.”, diz-nos o padre, enquanto nos coloca a mão dentro das calças (é normal não é, ou fui eu que fui continuamente molestado pelo meu pároco?).
Os anos voam, passamos a puberdade, atingimos a maturidade, e descobrimos que o nosso tio e padre além de pedófilos eram racistas. Então abandonamos as nossas mais profundas crenças, esquecemos as lições de atletismo, e não tarda engordamos. Quando em festa ou descontraída reunião culpamos a cerveja pelos sete novos quilos, enquanto risonhamente pedimos ao empregado mais doze finos.
Face tão funesta realidade o Estado não teve mãos a medir: desceu o IVA sobre o consumo relacionado com a prática desportiva, fomenta a mesma através de campanhas publicitárias mal conseguidas, e faz-nos correr pondo-nos o fisco à perna.
Num gesto de solidariedade social e de forma a saldar a minha divida para com a sociedade, decidi fazer o mesmo e pôr todos a correr. Agora sou testemunha de Jeová, e cigano nos tempos livres.
É saudável, divertido por regra, e apenas raras vezes acaba em noites de febre e vómito ensanguentado (é normal não é, ou serei eu que estou cronicamente doente?).
Nascido e criado em Aldoar, desde menino que pratico desporto, por lazer ou necessidade. Nesta terra de gente rude e avessa à lei, cedo às crianças são inculcados os princípios básicos do atletismo, desta feita dissimulados em regras de sobrevivência. “Que deves fazer se vires um cigano na rua?”, perguntam-nos pouco após abandonarmos o berço. “Deves correr desalmadamente e trepar a árvore mais próxima.”, exemplificam-nos prontamente.
Continuam: “Se vires um preto deves largar a carteira, correr, saltar muros, e assim que longe deves rezar aquela oração que te ensinaram na catequese.”, diz-nos o padre, enquanto nos coloca a mão dentro das calças (é normal não é, ou fui eu que fui continuamente molestado pelo meu pároco?).
Os anos voam, passamos a puberdade, atingimos a maturidade, e descobrimos que o nosso tio e padre além de pedófilos eram racistas. Então abandonamos as nossas mais profundas crenças, esquecemos as lições de atletismo, e não tarda engordamos. Quando em festa ou descontraída reunião culpamos a cerveja pelos sete novos quilos, enquanto risonhamente pedimos ao empregado mais doze finos.
Face tão funesta realidade o Estado não teve mãos a medir: desceu o IVA sobre o consumo relacionado com a prática desportiva, fomenta a mesma através de campanhas publicitárias mal conseguidas, e faz-nos correr pondo-nos o fisco à perna.
Num gesto de solidariedade social e de forma a saldar a minha divida para com a sociedade, decidi fazer o mesmo e pôr todos a correr. Agora sou testemunha de Jeová, e cigano nos tempos livres.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Mythbuster
Neste curto ensaio pretendo desmascarar uns tantos mitos, urbanos e rurais, que assolam e assombram a enfraquecida sociedade dos nossos dias. Um ano e meio de árdua e morosa pesquisa antecedem esta exposição, ano e meio esse em que o autor, fruto da má sorte e pouca fortuna, perdeu um dedo e viajou inúmeras vezes no autocarro rodeado de idosos tossiquentos.
1- Disparar contra o depósito de combustível dum automóvel em movimento provoca a sua explosão – Falso. Há tempos fracassei quando desta forma tentei impedir a fuga de duas prostitutas búlgaras que me haviam burlado.
2- A visão dos dirigentes sindicais baseia-se no movimento – Verdadeiro. À semelhança dos dinossauros, os dirigentes sindicais apenas têm a percepção visual de um objecto quando este se move.
3- O Benfica é uma Nação – Falso/ (Verdadeiro quando sob o efeito de poderosos psicotrópicos). Apesar do Benfica realmente ter sido membro da Sociedade das Nações aquando da fundação desta, isto não mais se tratou do que uma brilhante tirada de humor negro por parte dos membros britânicos da Sociedade. Na década de 60, este mito renasceu durante uma noitada de sueca entre velhos senis numa tasca em Alfama.
4- Guilherme Silva é infértil – Falso. Apesar de assim parecer, Guilherme Silva não tem filhos não por “disparar pólvora seca”, mas sim por não conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo. Assim, da mesma maneira que este não consegue ler enquanto ouve musica, também não consegue procriar enquanto pratica o amor.
5- Cortes de papel doem que se farta – Falso. Ser baleado numa rótula dói que se farta. Cortes de papel são apenas os “primos pobres” das dores a sério.
6- Fornos de Algodres é “a Paris ibérica” – Falso. Esta ideia, não só falsa como estúpida, surgiu pela primeira vez num livro de Margarida Rebelo Pinto, e não tardou a proliferar pela literatura light portuguesa.
7- Vestir a roupa do avesso protege-nos da má sorte – Verdadeiro. Confesso que julgo este mito verdadeiro, pois desde menino que me visto de tal forma e apenas por uma vez vi um rim meu ser roubado por um cigano.
8- Algures na fronteira entre o Parque da Cidade e a avenida da Boavista existe um parque naturista – Falso. São apenas prostitutas a laborar.
(…)
1- Disparar contra o depósito de combustível dum automóvel em movimento provoca a sua explosão – Falso. Há tempos fracassei quando desta forma tentei impedir a fuga de duas prostitutas búlgaras que me haviam burlado.
2- A visão dos dirigentes sindicais baseia-se no movimento – Verdadeiro. À semelhança dos dinossauros, os dirigentes sindicais apenas têm a percepção visual de um objecto quando este se move.
3- O Benfica é uma Nação – Falso/ (Verdadeiro quando sob o efeito de poderosos psicotrópicos). Apesar do Benfica realmente ter sido membro da Sociedade das Nações aquando da fundação desta, isto não mais se tratou do que uma brilhante tirada de humor negro por parte dos membros britânicos da Sociedade. Na década de 60, este mito renasceu durante uma noitada de sueca entre velhos senis numa tasca em Alfama.
4- Guilherme Silva é infértil – Falso. Apesar de assim parecer, Guilherme Silva não tem filhos não por “disparar pólvora seca”, mas sim por não conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo. Assim, da mesma maneira que este não consegue ler enquanto ouve musica, também não consegue procriar enquanto pratica o amor.
5- Cortes de papel doem que se farta – Falso. Ser baleado numa rótula dói que se farta. Cortes de papel são apenas os “primos pobres” das dores a sério.
6- Fornos de Algodres é “a Paris ibérica” – Falso. Esta ideia, não só falsa como estúpida, surgiu pela primeira vez num livro de Margarida Rebelo Pinto, e não tardou a proliferar pela literatura light portuguesa.
7- Vestir a roupa do avesso protege-nos da má sorte – Verdadeiro. Confesso que julgo este mito verdadeiro, pois desde menino que me visto de tal forma e apenas por uma vez vi um rim meu ser roubado por um cigano.
8- Algures na fronteira entre o Parque da Cidade e a avenida da Boavista existe um parque naturista – Falso. São apenas prostitutas a laborar.
(…)
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Um dia na vida do neotérico cidadão Guilherme Silva
Acordo de manhã, e em busca de um pouco de informação e lazer sento-me ao computador enquanto me preparo para mais um árdua jornada de labor. Visito o meu mail na esperança que Jesus me tenha respondido à prece da noite volvida, e tenha finalmente arranjado maneira de me explicar como sintonizar os canais nas televisões cá de casa. De seguida visito o site da BBC em busca da excelência dos seus conteúdos. Minutos depois, mais satisfeito e em harmonia com o meu ser, desligo o computador e parto. Obrigado Big Breasted Chicks.
No autocarro, na tentativa de me abstrair de conversas enfadonhas e descoordenadas sento-me a ler “Eurico o presbítero” de Alexandre Herculano. Vinte minutos volvidos ainda miro a capa, sem conseguir pronunciar “presbítero”, tão pouco saber o seu significado. Chego à faculdade pouco mais tarde, mais esclarecido e realizado. “Deve ser um fruto.”, concluí.
Durante as aulas dou asas à minha essência, e divago sobre paixões e sonhos. Adoro cinema, salto em altura, música…Gosto especialmente das baladas do George Michael, e num exercício de auto-conservação vejo-me obrigado a gostar de papas de sarrabulho, de modo a garantir uma réstia que seja de virilidade no meu ser.
Adoraria também viajar, mas infelizmente não posso. Temo que em plena capital europeia, buscando um pouco de relax numa casa de má fama, dê de caras com a minha prima Cláudia, meia despida e enroscada a uma colher-de-pau. A crise toca a todos, e eu bem o sei.
Ao final da tarde, já em casa e de novo em frente ao computador, encomendo um toque real para o telemóvel num qualquer site manhoso publicitado na televisão em horários esquisitos. Duas horas mais tarde tocam-me à campainha e é-me apresentado o Borges, encarregue de me fazer um toque rectal. Publicidade enganosa ou simples falha de comunicação? Sinceramente não sei, mas não apreciei.
Já de madrugada e ainda no computador (“ahh, daí aquela barriga!”), entro no messenger para ter conversas que normalmente não me levam a lado algum. Muitas vezes, ao fim de escassos minutos, acabo reanimado pela minha mãe, depois de mais um ataque epiléptico provocado pelos berrantes emoticons. Pouco depois e agora a soro, volto a adormecer, ansiando pelo despertar de um novo dia.
Ain’t life a bitch?
No autocarro, na tentativa de me abstrair de conversas enfadonhas e descoordenadas sento-me a ler “Eurico o presbítero” de Alexandre Herculano. Vinte minutos volvidos ainda miro a capa, sem conseguir pronunciar “presbítero”, tão pouco saber o seu significado. Chego à faculdade pouco mais tarde, mais esclarecido e realizado. “Deve ser um fruto.”, concluí.
Durante as aulas dou asas à minha essência, e divago sobre paixões e sonhos. Adoro cinema, salto em altura, música…Gosto especialmente das baladas do George Michael, e num exercício de auto-conservação vejo-me obrigado a gostar de papas de sarrabulho, de modo a garantir uma réstia que seja de virilidade no meu ser.
Adoraria também viajar, mas infelizmente não posso. Temo que em plena capital europeia, buscando um pouco de relax numa casa de má fama, dê de caras com a minha prima Cláudia, meia despida e enroscada a uma colher-de-pau. A crise toca a todos, e eu bem o sei.
Ao final da tarde, já em casa e de novo em frente ao computador, encomendo um toque real para o telemóvel num qualquer site manhoso publicitado na televisão em horários esquisitos. Duas horas mais tarde tocam-me à campainha e é-me apresentado o Borges, encarregue de me fazer um toque rectal. Publicidade enganosa ou simples falha de comunicação? Sinceramente não sei, mas não apreciei.
Já de madrugada e ainda no computador (“ahh, daí aquela barriga!”), entro no messenger para ter conversas que normalmente não me levam a lado algum. Muitas vezes, ao fim de escassos minutos, acabo reanimado pela minha mãe, depois de mais um ataque epiléptico provocado pelos berrantes emoticons. Pouco depois e agora a soro, volto a adormecer, ansiando pelo despertar de um novo dia.
Ain’t life a bitch?
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Shakin' All Over
Ainda ofegante, reconduziu os revoltos cabelos de volta para trás da rubra orelha. Toda ela era fogo: o sangue corria-lhe mais quente que nunca, e a timidez dava-lhe um ar angelicamente indefeso.
Ela sempre adivinhara que este dia chegaria, que o momento aconteceria, e no âmago da sua insegurança só desejava não acabar enxovalhada.
Após ajustar a desgovernada blusa, de novo voltou a mira-lo. Ele sorria fraternamente, banhando-a de compaixão. Ela, enquanto apertava uma argola que se soltara, não deixava de pensar: “Como pude cair a seus pés?!?”.
Tenta erguer-se, mas os cansados joelhos aterram-na de novo. De novo o fita, e ele ainda a envolve em ternos olhares. Apesar de fugaz, para ele, todo o momento parecia prolongar-se eternamente.
Por fim, ela encontra hercúleas forças que batem a constrangedora gravidade, levanta-se, olha em volta, e agarra o salto-alto que se quebrara, precipitando a sua queda em plena via pública.
“- Tas a olhar? Nunca bistes? Uma pessoa já não pode cair que há logo festival…”
Ela sempre adivinhara que este dia chegaria, que o momento aconteceria, e no âmago da sua insegurança só desejava não acabar enxovalhada.
Após ajustar a desgovernada blusa, de novo voltou a mira-lo. Ele sorria fraternamente, banhando-a de compaixão. Ela, enquanto apertava uma argola que se soltara, não deixava de pensar: “Como pude cair a seus pés?!?”.
Tenta erguer-se, mas os cansados joelhos aterram-na de novo. De novo o fita, e ele ainda a envolve em ternos olhares. Apesar de fugaz, para ele, todo o momento parecia prolongar-se eternamente.
Por fim, ela encontra hercúleas forças que batem a constrangedora gravidade, levanta-se, olha em volta, e agarra o salto-alto que se quebrara, precipitando a sua queda em plena via pública.
“- Tas a olhar? Nunca bistes? Uma pessoa já não pode cair que há logo festival…”
segunda-feira, 3 de março de 2008
(...)
(…)
- E é como te digo pá: lá estava eu na minha vida, e a gaja sempre a fazer-me olhinhos. Nesta altura já me encontrava num impasse: fazia-lhe o filme ou via o jogo?
O Purovic tava a jogar por isso decidi ficar atento à bola…
- E afinal como foi o jogo?
- Fraquinho. Muitas faltas, não houve porrada nas bancadas, e no intervalo fui ao WC e perdi o show das cheerleaders. Não me sentia tão defraudado desde que fui ver a Tannhäuser ao Coliseu. Aquela soprano não prestava…
Enfim, acabei a noite na tasca do costume, tocado por bagaço da casa.
- Eu fui tocado pelo meu tio quando tinha 7 anos...
(silêncio desconfortável)
- Queres mesmo ter esta conversa?
- Não.
- Continuando: tava uma gaja bem gira na tasca, e também me tava a fazer olhinhos…
(…)
- E é como te digo pá: lá estava eu na minha vida, e a gaja sempre a fazer-me olhinhos. Nesta altura já me encontrava num impasse: fazia-lhe o filme ou via o jogo?
O Purovic tava a jogar por isso decidi ficar atento à bola…
- E afinal como foi o jogo?
- Fraquinho. Muitas faltas, não houve porrada nas bancadas, e no intervalo fui ao WC e perdi o show das cheerleaders. Não me sentia tão defraudado desde que fui ver a Tannhäuser ao Coliseu. Aquela soprano não prestava…
Enfim, acabei a noite na tasca do costume, tocado por bagaço da casa.
- Eu fui tocado pelo meu tio quando tinha 7 anos...
(silêncio desconfortável)
- Queres mesmo ter esta conversa?
- Não.
- Continuando: tava uma gaja bem gira na tasca, e também me tava a fazer olhinhos…
(…)
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Woodstock
Sou feito de madeira. É verdade; suspeitava-o há anos; descobri-o há dias.
Desde os tempos em que o meu pai me pregava (literalmente) à cadeira quando me recusava a comer a sopa até ao fim, e a minha mãe me chegava fogo ao cabelo quando tirava notas abaixo de 4 no ensino básico, que suspeito ser da mesma essência das árvores (e da casa do porquinho do meio).
Depois chegou a adolescência e a minha suspeição viu-se cada vez mais fundamentada. A minha pele tornou-se mais rugosa (não gosto de me gabar, mas arrisco dizer que com um ligeiro "toque" do mais fino pinho), e quando a jogar à bola, os meus colegas diziam que “tinha pés que mais pareciam tábuas”.
Agora, em pleno test-drive da vida adulta, vejo provada a minha teoria. Como a madeira, passo a vida teso e sem onde cair morto, e as mulheres acusam-me de uma insensibilidade e de uma preocupante incapacidade de agir, tão habitual nas matérias mortas. Por fim, como é apanágio das árvores e seus derivados, também eu atraio bichas quando vou sair à noite.
Enfim, se alguém estiver interessado nuns bonitos brincos de madeira, tenho um dedo para vender…
Desde os tempos em que o meu pai me pregava (literalmente) à cadeira quando me recusava a comer a sopa até ao fim, e a minha mãe me chegava fogo ao cabelo quando tirava notas abaixo de 4 no ensino básico, que suspeito ser da mesma essência das árvores (e da casa do porquinho do meio).
Depois chegou a adolescência e a minha suspeição viu-se cada vez mais fundamentada. A minha pele tornou-se mais rugosa (não gosto de me gabar, mas arrisco dizer que com um ligeiro "toque" do mais fino pinho), e quando a jogar à bola, os meus colegas diziam que “tinha pés que mais pareciam tábuas”.
Agora, em pleno test-drive da vida adulta, vejo provada a minha teoria. Como a madeira, passo a vida teso e sem onde cair morto, e as mulheres acusam-me de uma insensibilidade e de uma preocupante incapacidade de agir, tão habitual nas matérias mortas. Por fim, como é apanágio das árvores e seus derivados, também eu atraio bichas quando vou sair à noite.
Enfim, se alguém estiver interessado nuns bonitos brincos de madeira, tenho um dedo para vender…
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
The World is Yours
Há meses acordei com uma fulminante dor de cabeça. Tratava-se de um novo sonho a formar-se. Recostei-me na cama, tomei dois tragos do rico ar, e deixei as ideias assentar. O sonho desvendara-se: queria ser Chefe do Mundo.
Sonhava ordenar, ser respeitado, amado e temido. Ter acesso a mundos e fundos; mulheres, terras, barcos (?), e toda a colecção do MacGyver em DVD.
Os meses passaram, os exames vieram, as notas seguiram-se, e o sonho cedo se desvaneceu. Chefe de mesa já serviria…
Há semanas, enquanto ouvia uma ou outra faixa do Tom Waits, o mesmo se sucedeu: um novo sonho se formava na minha cabeça.
Desta vez precisei de bem mais que o rico ar para fazer as ideias assentar, e só depois de uma injecção de morfina na testa, o novo sonho se clareava. Sonhava agora ser um ilustre bêbado: amado por muitos, odiado por outros; admirado por uns tantos, e roubado à má fila pelos amigos do alheio que vagueiam pelo metro.
Em casa, acercado de uma garrafa do mais cáustico rum, comecei a laborar em prol do meu mais recente sonho; mas cedo desisti. Não tolerava o enjoo, e começara uma doentia discussão com um guardanapo. Isto ainda sem sequer ter acabado de extrair a rolha.
Há dias um novo sonho me fulminou. Sonhava agora ser um poderoso industrial, produtor de sabonetes. De novo, cedo o abandonei. Confiar-me questões de higiene seria como confiar num barbeiro careca; seria como confiar num dentista sem dentes; seria como confiar uma adega ao Manuel Vilarinho…
Enfim, deixei-me de sonhos.
Uma vez lowlife, para sempre lowlife…
Sonhava ordenar, ser respeitado, amado e temido. Ter acesso a mundos e fundos; mulheres, terras, barcos (?), e toda a colecção do MacGyver em DVD.
Os meses passaram, os exames vieram, as notas seguiram-se, e o sonho cedo se desvaneceu. Chefe de mesa já serviria…
Há semanas, enquanto ouvia uma ou outra faixa do Tom Waits, o mesmo se sucedeu: um novo sonho se formava na minha cabeça.
Desta vez precisei de bem mais que o rico ar para fazer as ideias assentar, e só depois de uma injecção de morfina na testa, o novo sonho se clareava. Sonhava agora ser um ilustre bêbado: amado por muitos, odiado por outros; admirado por uns tantos, e roubado à má fila pelos amigos do alheio que vagueiam pelo metro.
Em casa, acercado de uma garrafa do mais cáustico rum, comecei a laborar em prol do meu mais recente sonho; mas cedo desisti. Não tolerava o enjoo, e começara uma doentia discussão com um guardanapo. Isto ainda sem sequer ter acabado de extrair a rolha.
Há dias um novo sonho me fulminou. Sonhava agora ser um poderoso industrial, produtor de sabonetes. De novo, cedo o abandonei. Confiar-me questões de higiene seria como confiar num barbeiro careca; seria como confiar num dentista sem dentes; seria como confiar uma adega ao Manuel Vilarinho…
Enfim, deixei-me de sonhos.
Uma vez lowlife, para sempre lowlife…
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Life, Part One
Nasci no dia 31 de Agosto de 1987. Dizem-me que não foi uma segunda-feira muito quente, nem muito fria. Foi assim-assim.
A minha mãe diz-me que caí do berço durante o meu primeiro ano. Acredito que é por isso que agora sofro de vertigens, e tenho excelente visão nocturna.
Aos 3 anos tive um irmão gémeo.
Aquando dos meus 8 anos (sim, passei o período entre os meus 3 e os 8 anos a hibernar), enquanto brincava a tentar fugir de caracóis em frente a minha casa, avistei um OVNI que me sobrevoava. Foi um ponto de viragem na minha vida, apesar de mais tarde ter descoberto que não passava de um saco-plástico.
Tinha 9 anos quando descobri as mulheres e o sexo. Chamava-se Juggs Magazine, e custou-me 250 escudos no café Green Stone.
Aos 10 anos aprendi a falar.
Aos 11 anos proibiram-me de falar.
Foi aquando dos meus 11 anos que enveredei pelo futebol. Fui bem acolhido no seio da equipa, e rapidamente nomeado craque e “jovem promessa” do plantel. Receosos que me lesionasse, proibiram-me de jogar.
A minha família adoptou um gato quando tinha 12 anos. Astuto como todos os gatos, rapidamente tomou o meu lugar no seio da família. Agora na marquise, as minhas noites passaram a ser bem mais frias.
Tinha 13 anos quando finalmente conheci uma rapariga.
Agora, com 20 anos, e graças à forte medicação que o meu psiquiatra me receitou, não me lembro do que foi a minha vida nos últimos 7 anos. Mas as cicatrizes nas costas não me deixam agourar boas coisas…
A minha mãe diz-me que caí do berço durante o meu primeiro ano. Acredito que é por isso que agora sofro de vertigens, e tenho excelente visão nocturna.
Aos 3 anos tive um irmão gémeo.
Aquando dos meus 8 anos (sim, passei o período entre os meus 3 e os 8 anos a hibernar), enquanto brincava a tentar fugir de caracóis em frente a minha casa, avistei um OVNI que me sobrevoava. Foi um ponto de viragem na minha vida, apesar de mais tarde ter descoberto que não passava de um saco-plástico.
Tinha 9 anos quando descobri as mulheres e o sexo. Chamava-se Juggs Magazine, e custou-me 250 escudos no café Green Stone.
Aos 10 anos aprendi a falar.
Aos 11 anos proibiram-me de falar.
Foi aquando dos meus 11 anos que enveredei pelo futebol. Fui bem acolhido no seio da equipa, e rapidamente nomeado craque e “jovem promessa” do plantel. Receosos que me lesionasse, proibiram-me de jogar.
A minha família adoptou um gato quando tinha 12 anos. Astuto como todos os gatos, rapidamente tomou o meu lugar no seio da família. Agora na marquise, as minhas noites passaram a ser bem mais frias.
Tinha 13 anos quando finalmente conheci uma rapariga.
Agora, com 20 anos, e graças à forte medicação que o meu psiquiatra me receitou, não me lembro do que foi a minha vida nos últimos 7 anos. Mas as cicatrizes nas costas não me deixam agourar boas coisas…
domingo, 6 de janeiro de 2008
É psicológico
O frio é psicológico, disseram-me; e eu acreditei. Acreditei e acabei por ter de cortar um dedo do pé, que de tão gelado apodrecera.
A solidão é psicológica, explicaram-me; e eu acreditei. Acreditei e acabei por dar um nome ao dedo que recentemente perdera (o Tadeu. Um bocado calado, mas bom ouvinte).
A perfuração pulmonar é psicológica, juraram-me; e eu acreditei. Acreditei, e julgo que o facto de estar a cuspir sangue tem algo a ver com isso.
O amor é psicológico, convenceram-me; e eu acreditei. Acreditei e acabei por pagar 30€ na mesma.
Os murros são psicológicos, contaram-me; e eu acreditei. Acreditei e ainda me falta achar três dentes e parte da minha dignidade.
O álcool é psicológico, li algures; e eu acreditei. Acreditei e acordei nu no porto de Leixões.
As “Tardes da Júlia” são psicológicas, ouvi dizer; e eu acreditei. Acreditei e ainda sangro do nariz sempre que mexo a cabeça muito rápido.
A luz solar é psicológica, ouvi no rádio; e eu acreditei. Acreditei e agora escrevo este post com o meu novo teclado com alfabeto Braile.
Blogs são fixes, disse-me um vizinho; e eu acreditei. Acreditei e agora não tenho amigos.
A solidão é psicológica, explicaram-me; e eu acreditei. Acreditei e acabei por dar um nome ao dedo que recentemente perdera (o Tadeu. Um bocado calado, mas bom ouvinte).
A perfuração pulmonar é psicológica, juraram-me; e eu acreditei. Acreditei, e julgo que o facto de estar a cuspir sangue tem algo a ver com isso.
O amor é psicológico, convenceram-me; e eu acreditei. Acreditei e acabei por pagar 30€ na mesma.
Os murros são psicológicos, contaram-me; e eu acreditei. Acreditei e ainda me falta achar três dentes e parte da minha dignidade.
O álcool é psicológico, li algures; e eu acreditei. Acreditei e acordei nu no porto de Leixões.
As “Tardes da Júlia” são psicológicas, ouvi dizer; e eu acreditei. Acreditei e ainda sangro do nariz sempre que mexo a cabeça muito rápido.
A luz solar é psicológica, ouvi no rádio; e eu acreditei. Acreditei e agora escrevo este post com o meu novo teclado com alfabeto Braile.
Blogs são fixes, disse-me um vizinho; e eu acreditei. Acreditei e agora não tenho amigos.
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Dr. Strangelove
Quem me conhece sabe que não sou nenhum love expert.
As minhas capacidades de aconselhamento amoroso são quase nulas: repetem-se sugestões como “Vê o Closer e compra a Playboy que isso passa.”, ou simplesmente “Sabes, conheço um gajo que vende cianeto…”
Paralelamente, não sou nenhum Deus do flirt. Confio o meu pescoço e toilette à colónia barata, e em baladas românticas como toques de telemóvel. Para mais, desde que puseram guardas à porta das primárias, a coisa tem vindo a piorar...
Como já referi, Jesus não gosta especialmente da minha pessoa. Não me chegassem já os referidos handicaps, presenteou-me também com uma quase total incapacidade de “ler os sinais” do sexo oposto. Episódios frequentes envolvem respostas como “Sabes que gostas!” a singelos perguntar de horas por parte de velhinhas octogenárias, e “Não obrigado. Já é tarde e deves tar cansada...” a convites para visitar apartamentos de loiras madrugada dentro.
De facto, este meu ultimo handicap tem vindo a generalizar-se. Ultimamente, quando em frente ao espelho, tendo a não conseguir perceber quais as verdadeiras intenções do individuo que deslindo.
Acho que tenho medo…
As minhas capacidades de aconselhamento amoroso são quase nulas: repetem-se sugestões como “Vê o Closer e compra a Playboy que isso passa.”, ou simplesmente “Sabes, conheço um gajo que vende cianeto…”
Paralelamente, não sou nenhum Deus do flirt. Confio o meu pescoço e toilette à colónia barata, e em baladas românticas como toques de telemóvel. Para mais, desde que puseram guardas à porta das primárias, a coisa tem vindo a piorar...
Como já referi, Jesus não gosta especialmente da minha pessoa. Não me chegassem já os referidos handicaps, presenteou-me também com uma quase total incapacidade de “ler os sinais” do sexo oposto. Episódios frequentes envolvem respostas como “Sabes que gostas!” a singelos perguntar de horas por parte de velhinhas octogenárias, e “Não obrigado. Já é tarde e deves tar cansada...” a convites para visitar apartamentos de loiras madrugada dentro.
De facto, este meu ultimo handicap tem vindo a generalizar-se. Ultimamente, quando em frente ao espelho, tendo a não conseguir perceber quais as verdadeiras intenções do individuo que deslindo.
Acho que tenho medo…
domingo, 28 de outubro de 2007
Arrumações
Arrumar o quarto é detestável, agonizante e perigoso. No meio de roupa, livros, algemas e Barbies, há sempre aqueles pequenos objectos pontiagudos que nos cortam os dedos quando não estamos a olhar. Pior que arrumar um quarto, apenas arrumar dois quartos ao som das “piadas” do Nilton.
Mas arrumar o quarto pode também trazer-nos óptimas reminiscências. Foi o que me aconteceu esta tarde. Ao fim de cinco minutos de arrumação, a minha enfadonha cara de tédio transformara-se já, espelhando agora grande alegria e regozijo. O meu quarto, eterno monte de entulho encarnado, revelara-se um perfeito álbum de recordações. Qual ADN, qual biografia ou álbum de fotografias, o meu quarto contava a minha vida como nada e ninguém.
Num canto a minha primeira action figure do Dragon Ball, noutro o meu primeiro Diablo. Numa estante a minha medalha de 27º lugar no corta-mato da escola, ao lado do meu primeiro dente de leite, que por sua vez está encostado ao meu primeiro dedo "de leite”, nome que lhe dei para atenuar a sua perda. Perto, na parede, o buraco por onde um dia pensei a minha fuga. Na cama a almofada que guardo desde bebé, no meu guarda-roupa a minha primeira namorada…
Incrível. Eu revia-me no meu quarto.
O meu quarto é-me.
Eu sou o meu quarto…
Mas arrumar o quarto pode também trazer-nos óptimas reminiscências. Foi o que me aconteceu esta tarde. Ao fim de cinco minutos de arrumação, a minha enfadonha cara de tédio transformara-se já, espelhando agora grande alegria e regozijo. O meu quarto, eterno monte de entulho encarnado, revelara-se um perfeito álbum de recordações. Qual ADN, qual biografia ou álbum de fotografias, o meu quarto contava a minha vida como nada e ninguém.
Num canto a minha primeira action figure do Dragon Ball, noutro o meu primeiro Diablo. Numa estante a minha medalha de 27º lugar no corta-mato da escola, ao lado do meu primeiro dente de leite, que por sua vez está encostado ao meu primeiro dedo "de leite”, nome que lhe dei para atenuar a sua perda. Perto, na parede, o buraco por onde um dia pensei a minha fuga. Na cama a almofada que guardo desde bebé, no meu guarda-roupa a minha primeira namorada…
Incrível. Eu revia-me no meu quarto.
O meu quarto é-me.
Eu sou o meu quarto…
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Sub-90
09:23.
Esperava pelo autocarro que me levaria para outras bandas e o dia até que nem me corria mal: tomara um bom pequeno-almoço, e no caminho para a paragem não me cruzara com nenhum javali.
Sozinho, deixei-me levar pela preguiça e fechei os olhos por mais um pouco. Foi quando senti alguém acercar-se de mim e ao meu lado sentar-se. Era um velhinho.
Frágil, lento e amável sorriu para mim. Lembrei-me que desde pequeno os meus pais me aconselhavam a não cumprimentar velhinhos, pois eles eram “manhosos, traiçoeiros e velhinhos”, mas num rasgo de simpatia soltei um “bom dia”.
Visivelmente regozijando, o velhinho todo ele sorriu.
“Bom dia! Tá frio hoje, não?”, perguntou-me animado. Respondi-lhe afirmativamente, e num rasgo de sabedoria popular acrescentei “E parece que vem aí trovoada. Uma pessoa já não consegue perceber o tempo. Tá tudo trocado, e a culpa é do Bush, aquele bandido…”.
Acabara de assinar a minha sentença e nem sequer me apercebera. Inocentemente desencadeara uma conversa que agora sei não queria ter. Da política à columbofilia, do futebol ás técnicas de captação de aguás subterrâneas, divagamos um pouco sobre tudo. A cabeça começara a doer-me como nunca. Desistira de falar e limitara-me a ouvir.
Quinze minutos volvidos e encontrava-me em estado de catarse. Deixara de sentir os membros, e sabia o colapso inevitável. Fitei o velhinho uma última vez. Sorria.
Desmaiei.
Acordei horas mais tarde, despenteado e gelado, deitado no porto de Leixões. A carteira e o telemóvel continuavam-me nos bolsos, mas estava descalço. O velhinho roubara-me as sapatilhas.
“Raios! Raios pós velhinhos e a sua fixação por sapatilhas…”.
(A minha verdadeira experiência pode vagamente variar da aqui escrita.)
Esperava pelo autocarro que me levaria para outras bandas e o dia até que nem me corria mal: tomara um bom pequeno-almoço, e no caminho para a paragem não me cruzara com nenhum javali.
Sozinho, deixei-me levar pela preguiça e fechei os olhos por mais um pouco. Foi quando senti alguém acercar-se de mim e ao meu lado sentar-se. Era um velhinho.
Frágil, lento e amável sorriu para mim. Lembrei-me que desde pequeno os meus pais me aconselhavam a não cumprimentar velhinhos, pois eles eram “manhosos, traiçoeiros e velhinhos”, mas num rasgo de simpatia soltei um “bom dia”.
Visivelmente regozijando, o velhinho todo ele sorriu.
“Bom dia! Tá frio hoje, não?”, perguntou-me animado. Respondi-lhe afirmativamente, e num rasgo de sabedoria popular acrescentei “E parece que vem aí trovoada. Uma pessoa já não consegue perceber o tempo. Tá tudo trocado, e a culpa é do Bush, aquele bandido…”.
Acabara de assinar a minha sentença e nem sequer me apercebera. Inocentemente desencadeara uma conversa que agora sei não queria ter. Da política à columbofilia, do futebol ás técnicas de captação de aguás subterrâneas, divagamos um pouco sobre tudo. A cabeça começara a doer-me como nunca. Desistira de falar e limitara-me a ouvir.
Quinze minutos volvidos e encontrava-me em estado de catarse. Deixara de sentir os membros, e sabia o colapso inevitável. Fitei o velhinho uma última vez. Sorria.
Desmaiei.
Acordei horas mais tarde, despenteado e gelado, deitado no porto de Leixões. A carteira e o telemóvel continuavam-me nos bolsos, mas estava descalço. O velhinho roubara-me as sapatilhas.
“Raios! Raios pós velhinhos e a sua fixação por sapatilhas…”.
(A minha verdadeira experiência pode vagamente variar da aqui escrita.)
sábado, 22 de setembro de 2007
História de Portugal - Director’s cut
Sonho estranho o que tive a noite passada.
Sonhei que viajava no tempo, “aterrando” em momentos decisivos da história de Portugal, e sempre encarnando figuras de grande vulto e importância.
Comecei por acordar em pleno século XII. Estávamos em meados de 1128, e a Batalha de São Mamede adivinhava-se. Encarnara no corpo de D. Afonso Henriques e encontrava-me frente a frente com minha mãe e inimiga, D. Teresa.
“Mãe, ordeno que saias de território Portucalense, e que contigo arrastes as infames hostes de castelhanos que te acompanham! Se não o fizeres, juro por Deus que farei abater sobre ti a mais pesada das vinganças.”, disse sempre a fitando.
“E eu como tua mãe, ordeno que tu e teus homens pouseis vossas armas, e capituleis perante mim!”, retorquiu D. Teresa. A sua voz atingiu-me como uma lança, e seu olhar fulminou-me; não resisti. “Sim sim mãezinha, assim o farei. Desculpa-me por favor a arrogância... Já agora, arranjas-me por favor 2 moeditas para ir até à taberna com uns amigos?”
Meu Deus, quão fraco fora. Acabara de entregar Portugal a Castela…
Com a vergonha colapsei, e em nova era voltei a acordar.
Encontrava-me agora no final do século XV. Era Vasco da Gama e preparava-me para partir na épica viagem em descoberta das Índias. Antes de embarcar perguntei a meu irmão Paulo onde estavam as pastilhas para o enjoo. “O que é isso?”, perguntou-me ele espantado. “Não me digas que não temos! Assim não parto. Sabes que todo o reboliço marítimo me dá a volta à tripa…” retorqui irritado. Virei costas ao porto e dirigi-me para a taberna mais próxima, procurando companhia para uma muito apetecida partida de dominó.
De novo colapsei envergonhado. De novo envergonhara a nação lusitana…
Episódios semelhantes repetiram-se toda a noite. Fui D. Pedro IV e permaneci no Brasil, devoto a longos banhos de sol e caipirinhas, entregando Portugal a meu absolutista irmão; fui Almeida Garrett, mas abandonei a escrita pois não me agradava escrever à luz das velas (sempre tive uma vista fraquinha!); fui Salazar e não caí da cadeira; fui Eládio Climaco e rejeitei apresentar os “Jogos sem fronteiras”…
Enfim, vergonhoso…
Sonhei que viajava no tempo, “aterrando” em momentos decisivos da história de Portugal, e sempre encarnando figuras de grande vulto e importância.
Comecei por acordar em pleno século XII. Estávamos em meados de 1128, e a Batalha de São Mamede adivinhava-se. Encarnara no corpo de D. Afonso Henriques e encontrava-me frente a frente com minha mãe e inimiga, D. Teresa.
“Mãe, ordeno que saias de território Portucalense, e que contigo arrastes as infames hostes de castelhanos que te acompanham! Se não o fizeres, juro por Deus que farei abater sobre ti a mais pesada das vinganças.”, disse sempre a fitando.
“E eu como tua mãe, ordeno que tu e teus homens pouseis vossas armas, e capituleis perante mim!”, retorquiu D. Teresa. A sua voz atingiu-me como uma lança, e seu olhar fulminou-me; não resisti. “Sim sim mãezinha, assim o farei. Desculpa-me por favor a arrogância... Já agora, arranjas-me por favor 2 moeditas para ir até à taberna com uns amigos?”
Meu Deus, quão fraco fora. Acabara de entregar Portugal a Castela…
Com a vergonha colapsei, e em nova era voltei a acordar.
Encontrava-me agora no final do século XV. Era Vasco da Gama e preparava-me para partir na épica viagem em descoberta das Índias. Antes de embarcar perguntei a meu irmão Paulo onde estavam as pastilhas para o enjoo. “O que é isso?”, perguntou-me ele espantado. “Não me digas que não temos! Assim não parto. Sabes que todo o reboliço marítimo me dá a volta à tripa…” retorqui irritado. Virei costas ao porto e dirigi-me para a taberna mais próxima, procurando companhia para uma muito apetecida partida de dominó.
De novo colapsei envergonhado. De novo envergonhara a nação lusitana…
Episódios semelhantes repetiram-se toda a noite. Fui D. Pedro IV e permaneci no Brasil, devoto a longos banhos de sol e caipirinhas, entregando Portugal a meu absolutista irmão; fui Almeida Garrett, mas abandonei a escrita pois não me agradava escrever à luz das velas (sempre tive uma vista fraquinha!); fui Salazar e não caí da cadeira; fui Eládio Climaco e rejeitei apresentar os “Jogos sem fronteiras”…
Enfim, vergonhoso…
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
Where the wild roses grow
As pálpebras fechadas e ainda assim o Sol me iluminava a alma. Ah, como é bom acordar com o terno abraço do Sol…
Estupefacto.
Estupefacto acordei num jardim. Lembrava-me de adormecer no aconchego do quarto, e no entanto acordara num jardim. Era o mais belo que já vira.
Acordara sobre uma cama de rosas, e nunca me sentira tão confortável. Margaridas, lilases, lavanda, e outras tantas flores me rodeavam também, e que rico aroma me ofereciam pela manhã.
Os meus vilipendiadores vizinhos, trocara-os por coelhos, esquilos e abelhas. Quão bela vizinhança tinha agora… Amigáveis e curiosos rodeavam-me, nada me exigindo senão a pacifica coexistência. Atrás das rochas a água brotava incessantemente, criando um imenso lago onde centenas de peixes de todas as cores e feitios me davam as boas vindas.
Tudo tão perfeito. A calma, a cor, a paz, a Natureza…Desejava não mais dali sair.
Rendido à magnificência da paisagem, sentei-me, abri o meu saco e tirei o meu portátil. “Que local perfeito. Perfeito para sacar umas músicas e jogar Counter Strike. Graças a Deus a net wireless!”
Simplesmente perfeito…
Estupefacto.
Estupefacto acordei num jardim. Lembrava-me de adormecer no aconchego do quarto, e no entanto acordara num jardim. Era o mais belo que já vira.
Acordara sobre uma cama de rosas, e nunca me sentira tão confortável. Margaridas, lilases, lavanda, e outras tantas flores me rodeavam também, e que rico aroma me ofereciam pela manhã.
Os meus vilipendiadores vizinhos, trocara-os por coelhos, esquilos e abelhas. Quão bela vizinhança tinha agora… Amigáveis e curiosos rodeavam-me, nada me exigindo senão a pacifica coexistência. Atrás das rochas a água brotava incessantemente, criando um imenso lago onde centenas de peixes de todas as cores e feitios me davam as boas vindas.
Tudo tão perfeito. A calma, a cor, a paz, a Natureza…Desejava não mais dali sair.
Rendido à magnificência da paisagem, sentei-me, abri o meu saco e tirei o meu portátil. “Que local perfeito. Perfeito para sacar umas músicas e jogar Counter Strike. Graças a Deus a net wireless!”
Simplesmente perfeito…
terça-feira, 18 de setembro de 2007
Dona Isaura
Não conseguia dormir. Há dias que passava noites a fio a pensar; a pensar numa mulher que me destroçara, me desarmara. Decidi procurar auxilio; procurar um ombro amigo que me ouvisse e aconselhasse.
“Mulheres são como flores meu caro. Tens de lhes dar calor, carinho e atenção se as queres ver florescer.”, disse-me carinhosamente Dona Isaura, a minha confidente. “Tens que te mostrar carente e sensível, mas forte e decidido. Nunca sejas arrogante ou a pressiones, e nunca, nunca mesmo lhe levantes a voz.”.
Desde catraio que recorro à Dona Isaura quando me encontro siderado e confuso. Ela parece compreender-me, e a sua voz é como um bálsamo para a minha alma. Uma verdadeira amiga, a Dona Isaura.
“Ouve Manel, basicamente tens que lhe mostrar que naquele momento só ela importa. Que ela é tudo para ti. Que ela é a tua Mais Que Tudo!”, rematou Dona Isaura em tom de conclusão.
“E assim conseguirei o que quero dela?”, perguntei timidamente.
“Sim, assim ela marca-te uma consulta com a Dra. Cândida sem que tenhas que esperar 3 meses. Ela põe-te logo no topo da lista de espera. E se não conseguires com falinhas mansas, dá-lhe discretamente 10€ que ela faz-te isso. Acredita, essa recepcionista Júlia é uma vigarista…Aliás, nesse centro de saúde são todas umas vigaristas.”
Já mais confiante, despedi-me de Dona Isaura, sempre respeitosamente curvado e sem nunca a fitar. Lancei-lhe um tímido “Adeus e obrigado.”, e com eles os 30€ que lhe devia pelos conselhos.
Uma verdadeira amiga, a Dona Isaura.
“Mulheres são como flores meu caro. Tens de lhes dar calor, carinho e atenção se as queres ver florescer.”, disse-me carinhosamente Dona Isaura, a minha confidente. “Tens que te mostrar carente e sensível, mas forte e decidido. Nunca sejas arrogante ou a pressiones, e nunca, nunca mesmo lhe levantes a voz.”.
Desde catraio que recorro à Dona Isaura quando me encontro siderado e confuso. Ela parece compreender-me, e a sua voz é como um bálsamo para a minha alma. Uma verdadeira amiga, a Dona Isaura.
“Ouve Manel, basicamente tens que lhe mostrar que naquele momento só ela importa. Que ela é tudo para ti. Que ela é a tua Mais Que Tudo!”, rematou Dona Isaura em tom de conclusão.
“E assim conseguirei o que quero dela?”, perguntei timidamente.
“Sim, assim ela marca-te uma consulta com a Dra. Cândida sem que tenhas que esperar 3 meses. Ela põe-te logo no topo da lista de espera. E se não conseguires com falinhas mansas, dá-lhe discretamente 10€ que ela faz-te isso. Acredita, essa recepcionista Júlia é uma vigarista…Aliás, nesse centro de saúde são todas umas vigaristas.”
Já mais confiante, despedi-me de Dona Isaura, sempre respeitosamente curvado e sem nunca a fitar. Lancei-lhe um tímido “Adeus e obrigado.”, e com eles os 30€ que lhe devia pelos conselhos.
Uma verdadeira amiga, a Dona Isaura.
domingo, 9 de setembro de 2007
Psicologia
Desde cedo comecei a interessar-me pela psicologia. Desejava conhecer as entranhas à mente humana, saber o que vai na cabeça dos outros, principalmente daqueles que usam o colete retro-reflector no assento do automóvel.
Ao ver aproximarem-se os derradeiros dias da minha turbulenta passagem pelo ensino secundário, decidi experimentar um pouco de todas as muitas profissões por onde ainda considerava ingressar. Experimentei ser pianista, mas disseram-me ter os dedos muito gordos. Experimentei ser taxidermista, mas todos aqueles coelhinhos mortos faziam-me lembrar coelhinhos mortos, e só Deus sabe quão triste fico na presença de tal cenário. Experimentei ser chef de cozinha, mas tudo que saía do meu forno ia muito em contra com as leis da Natureza e de Deus…
Depois de dezoito profissões tentadas, depois de dezoito calamitosos falhanços, depois de inúmeros pratos/mutantes encarcerados no meu armário, cheguei finalmente à vez da psicologia. Através de um simples inquérito que idealizara, parti numa alucinante demanda pelo conhecimento da mente humana.
“A capacidade de voar, ou o poder de ler a mente humana. Se pudesses ter um destes dois super-poderes, qual escolherias?”, foi a questão que apresentei ás quarenta voluntárias “cobaias” que à pressa reuni. Com tal projecto pretendia ficar a conhecer melhor o Homem, seus sonhos e ambições.
Os resultados foram surpreendentes e arrasadores: um dos inquiridos respondeu “O que é voar?”, outro “A sério Guilherme, nunca mais me convides para “almoçar” contigo!”, outro questionou preocupadamente “É normal eu ficar com uma dor de cabeça depois de ler a pergunta?”, e os restantes 37 escreveram “Vai pó …!”
Apesar de a amar, parece que o meu futuro também não vai passar pela psicologia...
Ao ver aproximarem-se os derradeiros dias da minha turbulenta passagem pelo ensino secundário, decidi experimentar um pouco de todas as muitas profissões por onde ainda considerava ingressar. Experimentei ser pianista, mas disseram-me ter os dedos muito gordos. Experimentei ser taxidermista, mas todos aqueles coelhinhos mortos faziam-me lembrar coelhinhos mortos, e só Deus sabe quão triste fico na presença de tal cenário. Experimentei ser chef de cozinha, mas tudo que saía do meu forno ia muito em contra com as leis da Natureza e de Deus…
Depois de dezoito profissões tentadas, depois de dezoito calamitosos falhanços, depois de inúmeros pratos/mutantes encarcerados no meu armário, cheguei finalmente à vez da psicologia. Através de um simples inquérito que idealizara, parti numa alucinante demanda pelo conhecimento da mente humana.
“A capacidade de voar, ou o poder de ler a mente humana. Se pudesses ter um destes dois super-poderes, qual escolherias?”, foi a questão que apresentei ás quarenta voluntárias “cobaias” que à pressa reuni. Com tal projecto pretendia ficar a conhecer melhor o Homem, seus sonhos e ambições.
Os resultados foram surpreendentes e arrasadores: um dos inquiridos respondeu “O que é voar?”, outro “A sério Guilherme, nunca mais me convides para “almoçar” contigo!”, outro questionou preocupadamente “É normal eu ficar com uma dor de cabeça depois de ler a pergunta?”, e os restantes 37 escreveram “Vai pó …!”
Apesar de a amar, parece que o meu futuro também não vai passar pela psicologia...
domingo, 2 de setembro de 2007
Geminus
Ficam desde já avisados os mais cépticos leitores, que o seguinte relato é totalmente verídico. Paladino da Verdade, nunca me permiti adulterar factos da minha vida para gáudio e prazer do leitor. De tão verídicas, as minhas seguintes palavras são decerto merecedoras de serem para sempre guardadas nos vossos corações, no compartimento dos “Textos credíveis, e episódios marcantes do MacGyver”.
Tudo se passou num fim de tarde de Outubro. Era ainda um pequeno, indefeso e imaturo gaiato que havia começado a estudar a tabuada na escola e tinha ainda bastantes dificuldades. Nesse dia tinha chegado cedo a casa, vindo da entediante inspecção militar no dia da defesa nacional, e aproveitara o tempo livre para na clausura do meu quarto praticar a fascinante nova matéria. Envolto em números, um novo Euclides nascera naquele silencioso quarto. Só a minha caneta se ouvia, enquanto sangrava sobre o papel toda a misteriosa beleza da matemática.
Como se de uma facada no peito se tratasse, o telemóvel toca. Vicissitude dos tempos modernos, as chamadas grátis de novo me importunavam. Era o meu irmão gémeo.
“Guilherme, tas bem? Estou a sentir uma dor no peito e pensei que talvez te tivesses magoado.”, perguntou preocupado. “Sim, estou bem, mas estava bem melhor antes de me ligares.” respondi notoriamente irritado. Foi então que senti um ardor no peito e desviei a minha atenção para o local. Estava encharcado em sangue.
“Ah Diogo, afinal estou bastante ferido. Tenho um lápis cravado no peito uns bons 5 centímetros, e pelo aspecto ressequido do sangue já estou assim há um bom par de horas...Olha, provavelmente vou falecer, por isso logo à noite dá tu de comer ao peixe. Abraço…”
Tudo se passou num fim de tarde de Outubro. Era ainda um pequeno, indefeso e imaturo gaiato que havia começado a estudar a tabuada na escola e tinha ainda bastantes dificuldades. Nesse dia tinha chegado cedo a casa, vindo da entediante inspecção militar no dia da defesa nacional, e aproveitara o tempo livre para na clausura do meu quarto praticar a fascinante nova matéria. Envolto em números, um novo Euclides nascera naquele silencioso quarto. Só a minha caneta se ouvia, enquanto sangrava sobre o papel toda a misteriosa beleza da matemática.
Como se de uma facada no peito se tratasse, o telemóvel toca. Vicissitude dos tempos modernos, as chamadas grátis de novo me importunavam. Era o meu irmão gémeo.
“Guilherme, tas bem? Estou a sentir uma dor no peito e pensei que talvez te tivesses magoado.”, perguntou preocupado. “Sim, estou bem, mas estava bem melhor antes de me ligares.” respondi notoriamente irritado. Foi então que senti um ardor no peito e desviei a minha atenção para o local. Estava encharcado em sangue.
“Ah Diogo, afinal estou bastante ferido. Tenho um lápis cravado no peito uns bons 5 centímetros, e pelo aspecto ressequido do sangue já estou assim há um bom par de horas...Olha, provavelmente vou falecer, por isso logo à noite dá tu de comer ao peixe. Abraço…”
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